domingo, 7 de maio de 2006

O Brasil tem Jeito?

Acho que nunca falei de política neste espaço. Em parte porque temos todos os meios de comunicação tradicionais para tratar do assunto; seria como chover no molhado. Mas sobretudo porque não alimento mais ilusões de que há políticos honestos e competentes com o poder necessário para realmente mudar as coisas. Como diria Douglas Adams, no "Restaurante no Fim do Universo", (curiosos com o título? É a continuação do célebre "Guia do Mochileiro das Galáxias") as pessoas menos indicadas para serem nossos representantes são justamente as que resolvem seguir carreira política. Aqueles que realmente se preocupam com sua comunidade, seu país, seu planeta, não têm a malícia e o despudor necessários para se tornarem políticos bem-sucedidos. O Eduardo Suplicy, por exemplo, é inteligente, honesto, age com tranparência e vê-se que ele entrou para a política com o intuito de fazer do Brasil um país mais humano, em todos os sentidos. Ele quer mesmo diminuir o enorme fosso que separa ricos e pobres em nosso país e que nos rende o nada honroso título de Vice-Campeão Mundial em Disparidade de Renda - o Campeão é uma nação africana. Suas virtudes e atitudes bem intencionadas são suficientes para ele, de fato, fazer uma diferença? Infelizmente, acho que não. Ele teria que fazer alianças espúrias e comprometer alguns de seus projetos, abrir mão de outros até que suas idéias sejam adaptadas ao gosto dos poderosos. Foi o que aconteceu com o Lula.
Essa história toda me remeteu a um filme que vi há anos: "Il Gattopardo" ("O Leopardo"eu acho), do Luchino Visconti, com Burt Lancaster e Claudia Cardinale. Puta filme. Ambientado na Sicília do Século XIX, o filme mostra a derrocada de um rico proprietário de terras, Prince Salina, e sua luta para preservar seu poderio quase feudal no processo de unificação da Itália, o Risorgimento. Ele percebe que sua época já passou, sua condição aristocrática está ameaçada, e põe todas suas esperanças no casamento de sua filha com um poderoso político local e em seu sobrinho e provável herdeiro, Tancredi, vivido por Alain Delon. É dele a frase que cai como uma luva para sintetizar a História Política no Brasil:

"If we want things to stay as they are, things will have to change"

Ou seja: para que as coisas continuem do jeito que estão, é preciso que elas mudem. Paradoxal? Certamente, mas também muito verdadeiro. Aqueles que ajudaram na campanha de Lula devem ter pensado assim: "A gente põe o Lula na presidência para que o povo tenha a impressão que desta vez sua vida vai melhorar, pois um legítimo representante deles chegou ao poder. Ao mesmo tempo ele vai ter que fazer tantos conchavos e concessões que qualquer tentativa real de mudança será inviabilizada, pois ele já vai estar de rabo preso".
Outra que eu admiro é a Heloísa Helena, do PSOL. Acho que ela vai se candidatar à presidência, e do jeito que as pessoas estão desiludidas com os políticos tradicionais, há uma possibilidade de ela ganhar, mesmo com uma campanha humilde e sem fazer alianças. Mas e depois? O problema da corrupção tem raízes profundas e apenas seus efeitos, e não as causas, são combatidos. Tem a ver com nossa formação cultural, o modo como fomos educados, quais são nossos modelos e também com a forma como (não) diferenciamos o público e o privado. Isso não se resolve em 4 anos. Como ela vai governar com uma minoria no Congresso, uma vez que teremos os mesmos deputados-patifes, apenas com nomes diferentes? Desculpem o pessimismo, mas acho que não importa quem vença, algumas coisas vão mudar para que tudo continue do mesmo jeito.

Um comentário:

Jin Morrissey disse...

E além disso nossa imprensa é tendenciosa e conservadora... você não está sendo pessimista, está sendo realista!