quarta-feira, 8 de março de 2006

Conto de Ficção-Científica

Podem me chamar de escapista, mas como o Tom Petty fala naquela música: "desculpe se há um lugar em minha mente onde vou de vez em quando". Fui prá outro planeta.

Estória interativa; você escolhe o final!

A incrível saga do Povo Odhacan

I

Num planeta distante, muito distante, vivia o povo de Odhacan, como eles próprios se denominaram. Na aurora da civilização odhacan, os homens ainda eram muito primitivos, tanto que nem chegavam a ter uma língua escrita, utilizando-se de desenhos toscos em cavernas para contarem suas histórias, ou seja lá o que eles tenham julgado digno de registro. Eventualmente eles foram evoluindo, deixando o nomadismo e estabelecendo-se com seus semelhantes nas primeiras cidades; fizeram descobertas, prosperavam, mas ainda faltava o mais importante: a fé, a religião, uma crença para dar um conforto à alma, respostas, algo para combater o pânico de se desconhecer o que está além dos portões da morte. Com o passar dos séculos, a política foi evoluindo até resultar em democracia, mas o clamor popular, cada vez mais forte, pedia uma resposta para o verdadeiro sentido de suas vidas. Um grupo da elite científica odhacan se reuniu com o governo pedindo verba para realizarem pesquisas sobre a origem dos odhacan. Isso poderia dar algumas pistas para os questionamentos filosóficos e espirituais do povo. O governo recebe a proposta com entusiasmo e oferece apoio total para uma expedição arqueológica.

Eis que os pesquisadores encontram inscrições antiqüíssimas, talvez as mais antigas de todos os desenhos em cavernas encontrados até então. Aos poucos, com intuição e paciência, conseguem decodificar as inscrições. Um tipo de HQ sem os quadrinhos, mas no mesmo estilo seqüencial. Elas contavam a história de um povo que veio dos céus em belas naves espaciais e contataram a população local, mostrando-se pacíficos e curiosos. Os primitivos concluíram que os visitantes eram os Deuses que eles nunca tiveram. A visita tinha aquele propósito: mostrar ao povo que algo maior e mais poderoso os observa dos céus, algo que deveria ser reverenciado como os pais de todos os nativos, pois foram os aliens que possibilitaram a existência de vida no planeta. Com o tempo as respostas viriam, disseram os visitantes, e no último desenho as naves deixam o planeta. As respostas nunca vieram.

II

A descoberta literalmente parou o país. Todos os odhacan pararam de fazer suas tarefas para discutirem sobre aqueles desenhos, que tinham por volta de 10.000 anos. Seriam os Odhacan fruto da generosidade de um povo superior? Quem eram eles? Por que não deram as respostas? Talvez porque soubessem que os nativos não as compreenderiam. Acima de tudo, os odhacan ansiavam por mais uma visita dos homens do céu.

Constrói-se um gigantesco emissor de ondas de rádio voltado para as estrelas, um mega-telescópio, além de um conjunto de radares receptores. Cogita-se até a construção de veículos espaciais, copiando o formato das naves nas inscrições, mas essa idéia é rechaçada, seria tentar se igualar aos Deuses, o que os odhacan viam como pecado.

Enquanto isso, as escavações prosseguem e revelam mais surpresas: inscrições próximas das já encontradas parecem descrever um mapa estrelar. De fato, representam com surpreendente exatidão a constelação de Magna-Tauri, tendo uma das estrelas em destaque. Não era preciso ser nenhuma autoridade no assunto para se concluir que os visitantes eram oriundos daquela estrela. Assim, o projeto de construção de veículos estrelares é retomado a todo vapor. O povo já não se importa com a suposta heresia e mostra-se ansioso para enviar um odhacan à moradia dos Deuses.

A Seita do Disco foi criada logo depois das primeiras descobertas e obviamente ganhou enorme popularidade, com adesões de odhacan de todos os tipos. Enfim poderiam preencher o vazio que antes havia na alma. E a Seita divulgou que depois de mortos, os odhacan iam para o planeta dos aliens, onde seriam felizes como nunca foram em toda a vida, exceto aqueles que não pagavam o dízimo, estes tinham suas almas queimadas como combustível das naves alien. Mas ninguém queria esperar a morte para experimentar a tal felicidade, então a construção do veículo estelar tornou-se prioritário para todo o planeta. Levaram anos para finalizar o projeto e a nave ganhou o nome de MOISES (Módulo de Operações Imponderáveis e Sondagem do Espaço Sideral). O dia da partida foi considerado o mais importante da história odhacan e tornou-se a partir daí feriado nacional. 3 astronautas embarcaram no veículo, cujo design foi inspirado nos discos desenhados nas cavernas. Calculou-se que levariam 6 meses até chegarem a Magna Tauri. Contudo, a comunicação da MOISES com a base de controle odhacan foi cortada faltando algumas horas para a nave atingir seu objetivo. O que aconteceu?

III


Agora a história está em suas mãos. Corações e mentes de milhões de seres mal aguentam o suspense que se criou depois que a comunicação com a MOISES foi cortada. Pelo amor do Deus Odhacan, decida o que houve com a nave. Não resisti e coloquei algumas sugestões, algumas bem cretinas:

1. Chegam nos aliens e são mortos. O povo acha que o desaparecimento e perda de contato com astronautas significam que o lugar é mesmo um paraíso que eles querem guardar para si próprios apenas. Constroem então uma esquadra de naves gigantes para transportar todo o povo odhacan a Magna Tauri e são exterminados por uma cruel raça alien. E nunca mais se ouve falar do povo Odhacan.

2. São bem recebidos, mas ao perguntarem sobre as respostas o alien se surpreende: “nós achamos que vocês encontrariam as respostas. Não somos deuses, ah essa é boa, somos um bando de engenheiros que não arruma namorada então ficamos fertilizando planetas como hobby. Eu, por exemplo, tenho 12.000 anos de idade e nunca dei um beijo de língua.”

3. Não há aliens como se imaginava, apenas um povo ignorante e primitivo. Os odhacan ensinam a eles algumas técnicas e são endeusados. Depois de “civilizados” os nativos, os odhacan regressam ao lar deixando uma carta estelar com sua localização no céu do planeta.

4. Aparentemente, não há vida em Magna Tauri. Entretanto, num episódio que nenhum astronauta soube explicar bem, uma “voz interna” orientou-os a se dirigirem a um determinado local, onde uma criatura humanóide os esperava. Ele não parecia nada contente, e disse: “Vocês não entenderam nada. A resposta não está nos lugares que vocês procuram, na realidade quanto mais vocês se julgarem próximos dela, mais distantes estarão. Será que vocês não enxergam que o segredo é a pergunta?” Não, os astronautas não entendiam e também ficaram irritados com o tratamento que estavam recebendo. Tanto esforço para nada? “Tentar achar uma resposta simples para o sentido da vida é como perseguir o pôr-do-sol a fim de adiar a chegada da noite. Vocês nunca vão alcança-lo, por mais que corram o horizonte sempre estará fora de seu alcance e a noite, inevitavelmente, virá. A não ser que fiquem eternamente dando voltas em seu planeta, mas qual o sentido disso?” Os 3 odhacan passaram da ira à perplexidade, e o humanóide continuou: “Vamos supor que eu soubesse a resposta – e eu não sei - e os informasse. O que vem depois do esclarecimento total? O que vocês buscariam então? A vida ganharia mais sentido, ou pelo contrário, perderia o sentido, já que não haveria mais mistérios? O que seria do dia se não fosse a noite? Voltem para casa: a resposta sempre esteve e sempre vai estar lá. Mas não a procurem, e quando vocês menos esperarem ela virá e vocês não vão sequer notar sua chegada.”

5. Na chegada avistam um gigantesco luminoso: “Disco S/A”. Quando desembarcam uma comitiva já os aguarda. Os aliens parecem pacíficos e amistosos mas há algo de artificial em sua simpatia. Então o chefe da comitiva começa a falar: “Representamos uma corporação galáctica que vende DNA para planetas sem vida. Plantamos a semente e esperamos a vida se desenvolver, se diversificar e evoluir. Deixamos algumas pistas que instigam a curiosidade dos nativos, esperando que eles venham até nós. Nunca falha, eles sempre chegam aqui esperando encontrar seus deuses. Rá, rá, como são ingênuos... Amigos, na verdade concedemos a vocês um empréstimo e vocês vieram aqui para acertarmos as contas. Temos mais coisas em comum que vocês supõem, mas algo nos diferencia: somos incapazes de sonhar. E os sonhos dos outros são nosso alimento, sem eles nós morremos. Então a proposta é a seguinte: implantaremos chips em seus corpos que vão servir de emissores de sonhos. O chip não tem efeito colateral algum e funde-se a seus organismos a ponto de os seus descendentes o herdarem como parte de sua cadeia genética original. Queremos apenas que vocês voltem e tragam mais odhacan para serem chipados.” Um astronauta pergunta: “E se nos recusarmos a receber esse chip?” “Aí vocês estarão declarando guerra à Disco S/A e destruiremos seu planeta bombardeando-o com torpedos anti-matéria.” “Porque vocês esperam ser visitados ao invés de simplesmente irem aos planetas que colonizaram e chiparem toda sua população?” “Questão de economia: para que gastar com naves e combustível se sabemos que nossos clientes virão até nós?” E assim o povo odhacan gradualmente foi-se tornando escravo da corporação. Ao contrário do que foi dito aos astronautas, o chip não só se apropria de seus sonhos como impede os odhacan de lembrá-los. O fim dos sonhos foi o primeiro passo da marcha que levará os odhacan à extinção.


2 comentários:

fe disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
landika disse...

puxa...vou ter que arranjar tempo pra ler seus posts! interessante as estatisticas sobre violencia contra a mulher e ...uma relação com os evangelicos