terça-feira, 30 de maio de 2006

TC Parte 3 - Jim Jones e o MK Ultra (Essa é 100% verdade)

Acho que pouca gente com menos de 30 anos já ouviu falar desse cara. Ou se ouviu deve estar confundindo-o com o personagem cômico do Chico Anísio que o satirizava, Tim Tones. É um pouco assustador constatar que o responsável (in)direto pela morte de quase 1.000 pessoas, a poucos quilômetros do território brasileiro, nos nem tão distantes finais dos anos 70, foi esquecido quase que completamente. Talvez Jim Jones tenha sido vítima de sua própria Teoria Conspiratória, talvez tenham armado para ele. Sobraram poucos para contar a história, e suas versões são, no mínimo, duvidosas...

O reverendo Jim Jones nasceu em 31 em Lynn, Indiana. Filho de um líder da Ku Klux Klan com uma índia, sempre foi um sujeito atípico por natureza. Oscilava entre pólos idelógicos como bola de ping pong: marxista e anti-comunista, agente da CIA e da KGB; ao mesmo tempo profundamente devotado à religião, inclusive fundando sua própria seita aos 32 anos, o Templo do Povo. Foi aí que começou a ter visões da iminência do fim do mundo e a ouvir vozes dizendo que ele era a reencarnação de Jesus Cristo e Lênin. Juntos. Só rindo...

No entanto, assim como muita gente sensata hoje em dia embarca na barafunda dos televangelistas, na época muitos o levaram a sério. Depois de passear pelo Rio de Janeiro e Belo Horizonte, entre outras cidades da América do Sul, escolheu a Guiana para sediar seu culto. O nome da comunidade deixava claro o quanto era humilde: Jonestown.

O que aconteceu lá... bem, como já disse a história é nebulosa, um prato cheio para os conspirólogos extravasarem seus delírios. Um ex-seguidor, Phil Kern, escreveu um livro dizendo que Jones nunca havia deixado a KGB e queria transformar a comunidade num posto avançado soviético, embora o reverendo combatesse o comunismo ateu entre os fiéis. Em 78 a cidade de Jones já estava, literalmente, bombando, com mais de 1.000 habitantes e rumores sobre trabalho escravo em um regime totalitário fortemente controlado por capangas com fuzis. Como a maioria dos seguidores era de norte-americanos, os E.U.A. enviaram o deputado democrata Leo Ryan e mais uns repórteres à Guiana para investigar os boatos. Na visita a Jonestown, o representante da embaixada americana Richard Dwyer juntou-se a eles. Ryan e os repórteres nunca contaram o que viram.

Isso porque no momento em que iam embarcar no avião de volta aos E.U.A. todos foram barbaramente assassinados, supostamente por seguidores de Jones. Reza a lenda que os executores pareciam "zumbis remotamente controlados".

Aqui aproveito para abrir um parêntesis. TCs se assemelham a galhos de uma imensa árvore: estão todos interligados. No caso, é nesse ponto que o caso Jim Jones conecta-se ao desavergonhado programa da CIA de controle mental, o infame MK Ultra. O objetivo do projeto era criar assassinos-autômatos, sem vontade própria nem remorso. Para isso as cobaias (nunca se soube ao certo como eram escolhidas, provavelmente criminosos, mendigos e imigrantes ilegais) eram forçadas a ingerir uma infinidade de drogas além de serem submetidas a eletrochoques, lobotomias e hipnose. O "pupilo modelo" seria como o personagem do filme "Sob o Domínio do Mal": uma pessoa comum, até receber um comando através de um telefonema, por exemplo, que despertaria o assassino frio que foi criado em seu "treinamento". Diz-se, inclusive, que vários assassinatos atribuídos a malucos solitários, são na verdade complôs muito bem engendrados pela CIA. Lembra do John Lennon? Kennedy? Bom, o que se sabe de fato é que o programa existiu mesmo, conforme a própria CIA reconheceu em 1970 numa investigação do Senado americano, quando além disso comprometeu-se a não mais realizar experimentos desse naipe, ao menos em solo americano. Nessa hora os caras da CIA devem ter dito: "então vamos prá América do Sul, que é perto e lá as vidas humanas valem muito menos"...

E então nossa história volta à Guiana. Enquanto o deputado e os repórteres eram chacinados no campo de pouso, no acampamento Jim Jones anunciava a chegada do Apocalipse e conclamava os fiéis a tomarem Tang envenenado com cianeto. Eles não tinham muita escolha: você podia até recusar educadamente, mas aí vinha um capanga e enfiava uma bala na sua cabeça.

Oficialmente foram 913 mortos, inclusive o reverendo. Mas podem ter sido muito mais, pois os corpos das vítimas foram embarcados para os E.U.A. e imediatamente cremados, sob protesto dos familiares. Os mistérios não páram aí: as mesmas drogas usadas no MK Ultra foram encontradas em grandes quantidades em Jonestown. E mais: inexplicavelmente, o diplomata Dwyer estava presente nos assassinatos no campo de pouso, mas escapou ileso. Depois descobriram que ele era da CIA (de novo!).

Por fim, a cereja no topo dessa banana-split das Teorias Conspiratórias: Jim Jones tinha várias tatuagens. Mas o cadáver dele encontrado na comunidade não tinha nenhuma.

domingo, 28 de maio de 2006

Film Noir

O filme noir é um dos dois gêneros de cinema (ao lado do Western) criado originalmente nos E.U.A. No princípio não se sabia que se tornaria um gênero à parte, mas entre 1941 e 1955, boa parte dos filmes americanos - incluindo os melhores - compartilhavam características do que ficaria conhecido como "film noir". Protagonistas mais humanos e instáveis, belas femmes fatales, diálogos ríspidos, fotografia explorando efeitos de contraste e muitas cenas externas noturnas.

No âmago dos filmes noir havia uma tentativa de subverter os padrões convencionais de Hollywood nas tramas, (sempre finais felizes) personagens, (maniqueístas, o herói moralmente inatacável) e estrutura narrativa (modo cronológico de contar as histórias). Ao rejeitar os padrões, por consequência os cineastas estavam também renegando os valores da América urbana do pós-guerra, denunciando a hipocrisia e a corrupção que havia por trás da fachada de perfeição que a sociedade ostentava. Nesse processo, criou-se um gênero inigualável, com obras tão fortes que conservam seu impacto até hoje. A seguir uma lista dos filmes mais representativos do gênero, classificados de acordo com a Associação de Críticos de Nova York (não consegui achar a tradução de alguns):

1. Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944) de Billy Wilder
2. Relíquia Macabra (The Maltese Falcon, 1941) de John Huston
3. The Big Sleep (1946) de Howard Hawks
4. Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950) de Billy Wilder - um dos melhores que já vi
5. Out of the Past (1947) de Jacques Tourneur
6. O Grande Golpe (The Killing, 1956) de Stanley Kubrick
7. In a Lonely Place (1950) de Nicholas Ray
8. Laura (1944) de Otto Preminger
9. The Asphalt Jungle (1950) de John Huston
10. O Destino Bate à sua Porta (The Postman Always Rings Twice, 1946) de Tay Garnett

TC Parte 2 - Borges e os Mundos Imaginários

Em um de seus escritos, o ficcionista argentino Jorge Luis Borges fala de Uqbar, país de localização imprecisa, talvez na Ásia Menor. Fascinado por temas que desafiam a lógica cartesiana, Borges foi a fundo na pesquisa desse país que ninguém nunca tinha ouvido falar. Na The Anglo-American Cyclopaedia, ele encontra um verbete sobre o lugar, mas as referências geográficas confundem mais que esclarecem. O breve texto diz ainda que a literatura em Uqbar é de cunho fantástico e suas sagas mitológicas ocorrem no mundo imaginário de Tlon. Em outro livro, A First Encyclopaedia of Tlon ele encontra descrições detalhadas desse lugar, onde há tigres invisíveis, torres de sangue e os habitantes desconhecem o conceito de tempo. Suas investigações o guiam para a Inglaterra do Século XVII, em Londres onde uma sociedade secreta de nome Orbis Tertius resolveu inventar um país chamado Uqbar. A idéia era produzir um incrível volume de informações falsas e difundi-las em publicações sérias.

Um século depois, um americano milionário, Ezra Buckley decide que inventar um país não é suficiente. Ele quis desafiar Deus e criar todo um planeta, com tudo que você pensar dentro. 300 pessoas trabalharam por anos na enciclopédia de 40 volumes de Tlon. A conspiração chega a requintes como fabricar e distribuir objetos que só existiriam em Tlon.
Possível descrição de Tlon

Achei isso tudo muito interessante porque quando tinha uns 10 ou 12 anos eu também inventei um país, a Sarquínia, uma ilha no Pacífico com as dimensões da França e colonizada por holandeses. Na época eu estava muito influenciado pelo livro A Ilha, do Aldous Huxley e concebi a Sarquínia também como um lugar utópico, livre dos males da Civilização Ocidental.

A física quântica diz que basta você imaginar uma realidade que em alguma dimensão paralela ela vai acontecer, ou coisa parecida. Borges defende a mesma tese em seu conto, lembrando inclusive que, em latim, "descobrir" e "inventar" têm o mesmo significado. Então Tlon, Uqbar e Sarquínia são lugares bem reais em um Universo além do nosso alcance e compreensão. Sua fantasia de fazer amor com aquela pessoa que você julga inatingível, ou a cena em que você dá um murro no olho do seu chefe, imaginada tão vivamente, também se concretizou em outro lugar/tempo.

sábado, 27 de maio de 2006

Eu devia estar feliz por ter comprado um Corcel 76

Carros. O maior fetiche do Século XX. Objeto cultuado por centenas de milhões de pessoas, que vêem nele uma espécie de atestado de sua ascensão na sociedade e realização pessoal. Símbolo do Ser Humano pós-moderno: individualista, materialista, preza a velocidade, as aparências e não hesita em passar por cima do outro para chegar onde quer. O automóvel que você dirige muitas vezes determina o modo com que você é tratado. Sei de casos absurdos como o de um cara que teve que se mudar de uma confortável casa num luxuoso bairro de BH para um distante conjunto habitacional para continuar pagando as prestações de sua BMW. Não tem mais dinheiro sequer para ir no cinema e depois jantar fora com a esposa. Sua qualidade de vida caiu drasticamente. Mas ele diz que esquece tudo isso no momento que entra no carro e se transforma em outra pessoa. O pior é que muitos que ouvem essa história dizem que fariam a mesma coisa. Lamentável.
Aí achei um site malhando o Hummer, aquele jipe militar gigantesco que parece um elefante sobre rodas. Francamente, quem precisa de uma coisa dessas? Em tempo: "Dummer" significa "mais burro"."Pelo menos meu carro é grande. Vivemos em um mundo de comparações. Não é o máximo dizer que o seu é maior?""O texto diz: "Em um mundo onde os utilitários-esportivos estão cada vez mais iguais a seus donos, o americano médio está 30% acima do peso ideal, consome 3.500 calorias por dia, assiste 4 horas de tv e sofre de pressão alta. O H2 prova que ainda há veículos grandes o suficiente para acomodar suas nádegas gigantescas. Não se contente em se auto-destruir. Destrua o mundo também".

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Whiter Shade of Pale

Assisti ontem de novo o filme "The Comitments". Simplesmente fabuloso, lírico, tragicômico. Numa parte o protagonista está em uma igreja e ouve a música "Whiter Shade of Pale" no órgão. O título já é uma promessa de imagens poéticas. Composta pelo grupo Procol Harum em 67, rapidamente tornou-se um estrondoso sucesso: enquanto "Sgt. Peppers" ocupava o topo das paradas no verão daquele ano na Inglaterra, nos E.U.A. o posto era dela. Com o órgão dando o tom numa atmosfera carregada de melancolia, "Whiter"... tem um quê de cafona, música de corno sertaneja, mela-cueca. Acho que sou um pouco cafona, gosto de Creedence e da trilha de "Os embalos de sábado à noite", entre outros hits de festas de formatura e botecos de cidade do interior. Pouco me importa.

We skipped a light fandango
turned cartwheels ´cross the floor
I was feeling kind of seasick
but the crowd called out for more

Mesmo traduzida, a letra não faz sentido, o que a torna ainda mais fascinante. Um tímido candidato a sedutor enche a cara num baile para diminuir o nervosismo e aos poucos vai ficando bêbado. Há uma analogia com um barco prestes a naufragar. Pelo menos é o que li num site. Em outro achei a letra completa, com duas estrofes a mais, onde fica clara a metáfora do navio perdido em mares desconhecidos. Ela fala de sentimentos muito humanos, vulnerável, universal e atemporal. E o melhor é que aqui você pode ouvi-la, inclusive escolhendo o intérprete. Uma das mais belas criações da música pop de todos os tempos.

terça-feira, 23 de maio de 2006

TC parte 1 - Os Reptilianos

David Icke é a personificação do conspirólogo sem um pingo de vergonha na cara. Para a felicidade geral da Humanidade ele descobriu a fonte de todos os nossos problemas: a fome, as guerras, as pestes, o Kenny G e todas essas coisas desagradáveis estão relacionados aos reptilianos, que, dependendo de onde se pesquisa, são oriundos da Quarta Dimensão ou da Constelação do Dragão.
Eles entraram em contato conosco há 10.000 anos. Nos intervalos das lições de tecnologias rudimentares que nos davam, os safadinhos aproveitavam para procriar com as fêmeas humanas, gerando uma raça híbrida que até hoje controla o planeta. Para isso, utilizam frequências distintas de nossa realidade, aprisionando-nos em nós mesmos (Realidade Matriz), impedindo-nos de manter contato com a realidade. Nossas mentes são fragmentadas e reprogramadas, utilizando sociedades secretas através de canais como a mídia, orações e sons para atingir seus objetivos doentios. Alimentam-se de sangue humano. Ou seja: são simultaneamente vampiros, magnatas e roteiristas do filme "Matrix". George W. Bush e a Rainha Elizabeth II são reptilianos com capacidade de mudar de forma. Outros, como Michael Jackson, têm mais dificuldade em se metamorfosear, tá explicado porque o cara é tão esquisito. Ok, essa parte do Michael eu inventei, mas não deixa de ser uma explicação mais plausível do que simples cirurgias plásticas. Quando não assumem a forma humana, os extraterrestres são répteis bípedes com asas nas costas e rabo de lagarto. Não é à toa que nos remetem à figura do Diabo, ele nada mais é que a representação de um reptiliano. Berlusconi saúda companheiro reptiliano

Onipotentes e onipresentes, são figurinhas carimbadas em diversas TC, da morte de Lady Di (um sacrifício ritual) aos Illuminati (sociedade secreta criada na Alemanha no Século XVIII, esteve por trás da Revolução Francesa, da morte de Kennedy etc) passando pelo Projeto Montauk (esse não dá prá explicar num parêntese). E antes de rotular Icke como um demente com imaginação fértil, saiba que ele já escreveu vários best sellers sobre o assunto e tem milhares de seguidores. Saiba mais aqui. Agora tudo parece mais claro, não é mesmo?

Teoria da Conspiração

Conspirar faz parte de nossa natureza. Conspiramos para manter nossos empregos e para conquistar aquela mulher gostosa. Conspiramos para vender nosso Gol bolinha de 10 anos e com o escapamento furado por um preço abusivo, quando exageramos nossos feitos profissionais para conseguir um aumento e quando reproduzimos rumores pouco elogiosos sobre o colega de trabalho cuja posição almejamos. Conspiramos ao copiarmos o texto de outra pessoa no blog e dizermos que é nosso. E quando o adversário descobre nossa estratégia, nós o acusamos de paranóico.

O conspirador mais eficiente é aquele que convence o maior número de pessoas que suas idéias malucas são a pura verdade, e que maluco é aquele que duvida disso. É aquele que arquiteta uma trama tão delirante que é impossível descobrir o que está por trás dela. Isso nos leva a uma reflexão deveras instigante. A conspiração mais insana, absurda e inacreditável que você encontrar nessa série talvez seja, na verdade, a única digna de confiança. Por isso vamos começar com uma TC (Teoria Conspiratória) da pá virada. Aliás, virada é pouco. Aqui a pá foi retorcida.
Obs: descobri que se eu mantiver os posts mais curtos, as chances de serem lidos são maiores. Então a primeira TC está no próximo post.

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Perspectiva

Veja só como é a vida: escrevi um longo parágrafo de lamentações hoje de manhã influenciado por uma questão de ordem profissional cujo desfecho poderia sepultar todos os meus projetos. À tarde consegui resolvê-la do modo mais satisfatório possível e imediatamente comecei a discordar de tudo que tinha escrito horas antes. Apaguei parte das lamúrias e deixei o resto, para mostrar que a verdade se encontra em algum lugar entre esses momentos de euforia e preocupação. Nada como uma mudança de perspectiva.

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Matadouro 5, ou A Cruzada das Crianças - Uma Dança com a Morte

Estava relendo agora uns posts que já publiquei e acho engraçado o fato de que, por mais tente variar os assuntos, sempre acabo me repetindo, usando as mesmas expressões para expor idéias já mencionadas. Na verdade, quando comparo as coisas que escrevo hoje com minhas redações do Segundo Grau, por exemplo, é notória a queda de qualidade dos textos. Eram mais concisos, frases curtas e vocabulário menos almofadinha. Parece que na minha adolescência o mundo se mostrava mais interessante, talvez porque tudo fosse novo e um oceano de possibilidades se abria para mim. Tem sido difícil escrever sobre coisas que gosto de verdade sem recorrer a lugares-comuns nem tornar o texto confuso, como este. Mas não é desse assunto que quero falar.

Ontem acabei de ler um livro chamado "Matadouro 5". Quando comprei não imaginava que ia gostar tanto, pois escolhi de propósito algo diferente do que costumo ler, geralmente obras de terror, ocultismo, ficção-científica ou livros de autores que já conheço bem - Rubem Fonseca, Patrícia Melo, Paul Auster, L. F. Verissimo e mais um ou outro. Este eu já tinha ouvido falar, mas não lembro de onde nem se a referência era boa. É um livro de bolso da L&PM, baratinho e o que me chamou a atenção foram as resenhas da contracapa: críticos de veículos de comunicação fodões endeusando o autor - Kurt Vonnegut, americano - e elegendo o livro como o melhor romance pacifista dos últimos 50 anos. O cara é descrito como "George Orwell, Dr. Caligari e Flash Gordon num único escritor". Eu o confundi com outro americano maluco cujo nome é Thomas Pynchon ou algo assim e escreve sobre teorias conspiratórias, por isso o escolhi. Sou louco por elas, quanto mais absurda melhor. Aproveito a deixa para anunciar que minha próxima série de posts vai ser sobre conspirações. No entanto, já vou adiantando que me recuso a abordar essa baboseira de "Código Da Vinci", apesar de reconhecer que é bem divertido. Mas também não é disso que quero falar.

Escrito em 1969, o livro narra, entre outras coisas, a experiência verídica de Vonnegut como soldado aliado na Segunda Guerra Mundial. Tudo gira em torno da descrição do bombardeio americano à cidade alemã de Dresden em 44. Você fica chocado com a bomba atômica em Hiroshima? Pois saiba que lá morreram por volta de 70.000 japoneses, enquanto o dobro pereceu numa única noite de ataque aéreo com armas convencionais em Dresden. Ninguém fala nisso, de fato os americanos encobriram essa catástrofe por décadas. Não havia lá quantidades significativas de soldados nazistas, nem sequer uma indústria bélica. Detalhe: eu sou judeu, mas partilho da visão do livro que uma guerra pode ter tudo, menos um lado heróico. Uma linda cidade, apelidada de "Florença do Rio Elba", foi reduzida a escombros salpicados de montinhos e montões de cinzas. Cada montinho era uma pessoa, cada montão um prédio ou uma casa. O pior é que o autor ainda consegue ser engraçado e sem um pingo de pieguice ou uso de recursos apelativos. Humor negro, colocado de forma tão brilhante que não tem como você ficar envergonhado de morrer de rir. Há toques de sci-fi; o protagonista, que não é Vonnegut, é abduzido por aliens e confinado num zoo espacial com uma atriz pornô e tem um filho com ela. Falei que o livro é bom, não falei? Os E.T.s também são inteligentemente concebidos, eles não compreendem a nossa definição de tempo. Para eles a vida é uma sucessão de eventos que vão se repetir incessantemente de forma desordenada. Então num momento estamos na guerra, de repente o personagem se vê em sua casa, muitos anos depois, aí ele abre uma porta e está no zoo do planeta Tralfamador. Confuso? Não, eu sou confuso, o livro é genial, fácil de ler e consegue ser triste, incisivo, anárquico, louco, fantástico, lógico, provocador, irônico, honesto, sagaz e ético, tudo ao mesmo tempo.

Ou, como a contracapa diz ..."Vonnegut oferece muito mais que um libelo pacifista. Trata-se de crítica social da mais criativa, da expressão de uma visão de mundo ingênua e desencantada"...

Acredite, este é o post mais útil que já escrevi. Estou me refreando para não estendê-lo ainda mais com citações do livro. Se tivesse dinheiro eu compraria dezenas dele e saía distribuindo, primeiro mandando para os 3 ou 4 que costumam comentar aqui e para a Bete, minha vizinha. Quem ler e não gostar está doente. E não custa nem 20 pratas.