sábado, 22 de abril de 2006

Fotojornalismo

Mais uma vez inicio um post com um pedido de desculpas pelas minhas prolongadas ausências, assim como também gostaria de agradecer a todos que têm comentado.

O que vem a seguir é a antítese das imagens que costumo publicar. Coisas que apesar de sua natureza repulsiva (ou por causa dela) foram escolhidas como a foto jornalística do ano através de um concurso promovido desde 1955. Ao clicar nas fotos para copiá-las deparei-me com um educado pedido para não fazê-lo. Paciência. Não estou ganhando nada copiando fotos protegidas por copyright, não estou prejudicando o site de modo algum, de fato estou fazendo o oposto, ajudando em sua divulgação e creditando as imagens. De modo que a meu ver não há nada de errado no meu procedimento. Elas podem ser vistas no endereço http://www.worldpressphoto.nl.

Vietnã, 1965. Mãe e filhos atravessam rio fugindo de bombardeio norte-americano. Acreditem, há várias fotos do conflito no site, algumas bem famosas, essa é uma das mais desconhecidas e a mais light. Foto de Kyoichi Sawada



Talvez eu delete este post. Obviamente, isso não é a matéria do sonho de ninguém, muito pelo contrário. Ao mesmo tempo, não quero ter um blog escapista que fala só de coisas agradáveis como cinema, música e uns contos pretensiosos. Essas coisas aconteceram em lugares distantes daqui, aparentemente não temos a menor relação com elas, mas mesmo assim acho importante não esquecê-las. Porque independente do momento ou lugar, as causas são sempre as mesmas. Para que não se repitam. Infelizmente, estamos lidando aqui com eventos que se deram há 20 ou 30 anos e boa parte dessas atrocidades continuam acontecendo.


Santiago, Chile, 11 de setembro (?!) de 1973. O presidente Salvador Allende poucos minutos antes de sua morte, no golpe militar que levou Pinochet ao poder e teve amplo apoio da CIA. Foto anônima, o autor corria risco de vida.


África do Sul, 1977. Multidão protestando contra a demolição de suas casas foge das bombas de gás lacrimogênio atiradas pela polícia. Vi um documentário que mostrou um caminhão cheio de homens brancos com rifles entrando num gueto e atirando a esmo nos negros indefesos que os circundavam. Acho que nunca vi algo tão abominavelmente sádico. Foto de Leslie Hammond.


Uganda, 1980. Menino faminto e missionário. Foto de Mike Wells.


Bhopal, India, 1984. Corpo de criança vítima do vazamento de gás venenoso da indústria química Union Carbide. Foto de Pablo Bartholomew. Um dia ainda vou falar desta tragédia, me lembro quando aconteceu, eu tinha 9 anos.


Praça da Paz Celestial, Pequim, China, 1989. Clássica: manifestante encara tanques do "Exército Popular de Libertação" ( impossível nome mais hipócrita). Comentário do autor Charlie Cole: "Se esse garoto vai dar a vida pelo protesto tenho a responsabilidade de registrar a foto". Até hoje o governo chinês ainda não admitiu a existência deste suposto massacre.

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Jane Elliott também tem um sonho

Antes de tudo, gostaria de explicar minha ausência: meu computador sofreu um curto-circuito causado por um raio e foi pro espaço. Escrevo de uma lan house e me esforço para concentrar, tarefa árdua, visto que estou cercado de adolescentes histéricos matando uns aos outros virtualmente(?).
Mas vamos ao que interessa: no último post prometi falar de duma tal Jane Elliott. Uma leitora já sacou quem é (pô, Bia, estragou o clima de suspense que eu quis criar). Mas quero dar mais detalhes. Para isso, vamos imaginar que estamos entrando num túnel do tempo - coisa mais clichê... - e regressando à loucura revolucionária do summer of love de 68 no E.U.A. Você sai do túnel e vê que foi transportado para uma típica cidadezinha americana. A data é 4 de abril de 68. Enquanto caminha pela Church Street, a rua principal, você percebe que aqui não há negros. Em seguida você chega na escola primária local e através de uma janela dá uma espiada numa sala de aula. Adivinha quem é a professora? A própria, Dona Jane. Como boa expoente de sua geração, ela se preocupa com temas como igualdade racial, conceito que coloca a América em ebulição nesse momento: protestos, confrontos, violência, sobretudo nas regiões mais conservadoras. E como falar em racismo para uma classe composta majoritariamente de WASPs (white, angle-saxon, protestant)?
Voltemos à nossa exploração além do espaço-tempo. Deixamos de observar a aula da Tia Jane porque notamos um rebuliço à nossa volta: pessoas andam prá lá e prá cá falando alto e discutindo exasperadamente, muitas escutam seus rádios atentamente, grupos se aglomeram ao redor de tvs. O que houve, você pergunta a um transeunte. Você não sabe? Martin Luther King acabou de ser assassinado. Seu olhar se volta para a sala de Jane: ela acabou de ser informada da tragédia, e visualmente abalada, cancela a aula naquele momento.
Jane ainda não sabe disso, mas esse evento provocaria uma guinada em sua vida que a transformaria numa das figuras mais polêmicas de seu país. Chocada com a crescente brutalidade nos conflitos raciais, ela se sente na obrigação de contribuir de algum modo na educação de seus alunos para que eles não se tornem racistas como boa parte de seus pais, quebrando a corrente da intolerância e da estupidez. Uma coisa já estava clara: a tarefa seria difícil, implicaria em bater de frente com os paradigmas incutidos naquelas crianças desde sua mais tenra idade.
Naquela noite nos a acompanhamos até sua casa e vemos que ela passa a noite em claro. No dia seguinte vamos com ela até a escola e no início da aula ela anuncia que hoje os alunos fariam um exercício diferente. Ela apresenta aos alunos uma tese absurda, mas fundamental para a realização do exercício: a cor dos olhos determina se você é inferior ou superior. Quem tem olhos azuis é mais inteligente, mais rápido, tem mais chances de se dar bem na vida. Aqueles com olhos castanhos são invariavelmente burros, preguiçosos e pouco confiáveis. A turma foi dividida de acordo com essa característica e a fim de evitar dúvidas ela colocou um adereço nas roupas dos castanhos - como os nazistas faziam com judeus, ciganos, gays etc. Ao longo do dia, os azuis são bem tratados, ganham privilégios e elogios; enquanto os castanhos eram discriminados a ponto de não poderem usar o mesmo bebedouro dos azuis. A velocidade com que essas mudanças afetam o relacionamento dos garotos é estarrecedora: logo os azuis se transformam em pequenos ditadores, desprezam, subjugam e humilham os castanhos. Estes, por outro lado, se tornam medrosos, tímidos e arredios. Mas isso não é tudo: as crianças introjetam seus novos "papéis sociais" de forma tão profunda que o rendimento acadêmico dos castanhos cai drasticamente, enquanto o oposto ocorre com os azuis. Céus, fiquei abismado particularmente com esse efeito. Como somos vulneráveis e sugestionáveis, quão poderoso é o ambiente na formação do caráter das pessoas!
Permanecemos alguns dias acompanhando a rotina de Jane e testemunhamos quando ela resolve reverter a situação, contando a seus alunos que os cientistas haviam cometido um erro e que na verdade aqueles com olhos castanhos são superiores aos olhos azuis. Mais uma vez presenciamos as mesmas cenas de humilhação, às vezes exacerbadas pelo fato de os castanhos aproveitarem a chance de se vingarem daqueles que os subjugaram. Obviamente, ela finaliza o exercício esclarecendo que aquilo tinha sido apenas uma simulação, que todos eram igualmente inteligentes e capazes não só naquela sala de aula, mas em todo o mundo.
Jane provou, de uma forma mais contundente que ela jamais imaginara, como a discriminação se agarra no fundo de nosso subconsciente tanto pelo opressor como pelo oprimido. Ela não mandou que os alunos se relacionassem diferentemente, disse apenas que eles eram diferentes, e mesmo assim eles quase que no mesmo instante adquiriram padrões de comportamento discriminatórios, provavelmente porque eles já haviam absorvido oum comportamento discriminatório de seus pais ou de outros adultos. Felizmente, ela também provou que o racismo pode ser "desaprendido": aliás, um trecho do documentário que nunca vou esquecer mostra a alegria e alívio das crianças ao jogarem no lixo os adereços que usavam nas roupas e indicavam sua suposta condição inferior.
Agora, imagine um americano branco, louro, olhos azuis, boa situação econômica, e morador de uma dessas cidadezinhas sendo submetido a esse exercício. O documentário mostra caras como esse chorando como crianças no final do exercício e dizendo que nunca imaginaram o que é estar do outro lado da realidade que vivem, o lado do oprimido, do menosprezado, marginalizado. O lado daquele que pensa que a vida é uma festa para a qual ele não foi convidado. Num seminário de duas horas sua concepção sobre a Humanidade muda da água para o vinho. Contudo para ele, o sofrimento acaba com o fim do exercício, mas e quanto a aqueles cujo "seminário" se inicia no momento em que nascem e prossegue até o fim de suas vidas? Francamente, é de pirar, e ao mesmo tempo explica um pouco porque todos os dias ouvimos notícias de atos de violência bestiais, o quanto a vida passou a valer tão pouco, a forma como as virtudes são abandonadas para darem lugar à busca de conquistas materiais a qualquer preço...
Ok, entramos de volta no túnel do tempo, é domingo à noite, estamos um pouco abalados com a aspereza do exercício de Jane. Submeter aquelas criancinhas a um jogo tão cruel... Então você liga a tv e sintoniza no Fantástico para ver umas amenidades e desviar seus pensamentos prá outro lugar. O Bial anuncia a exibição de um documentário: "Falcões". Precisa falar mais alguma coisa?
Obviamente, Jane foi criticada, perseguida, ameaçada, seu filho foi espancado na rua, foi demitida, teve que se mudar mais de uma vez de cidade, mas nunca desistiu de seu Blue Eye Project, até que gradualmente foi obtendo reconhecimento e passou a se dedicar exclusivamente a esses seminários, viajando por todo o país. Suas práticas foram se sofisticando, pois a discriminação não se resume à cor da pele, atinge sua idade ou sua orientação sexual ou religiosa.
O documentário ainda procura aquelas crianças que assistimos serem submetidas ao primeiro dia que Jane aplicou seu exercício muitos anos depois. Eles contam que no mesmo dia foram para suas casas ensinarem seus pais o quanto o racismo é errado, injusto e danoso. Hoje são pessoas mais positivas e sensíveis. E encerra com aquele famoso e maravilhoso discurso de um sujeito que viveu e morreu por um ideal - algo tão raro hoje em dia que é confundido com loucura ou burrice:

Now, I say to you today my friends, even though we face the difficulties of today and tomorrow, I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream. I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: - 'We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal.'

Martin Luther King Jr., Speech at Civil Rights March on Washington, August 28, 1963

sábado, 18 de março de 2006

Micael Masato Suzuki

Esse cara ainda vai ser grande. Ler blog é um saco, entendo porque ninguém lê o meu porque praticamente ninguém lê o de ninguém. Mas o dele era bom de ler. Novinho, o cara, mas com uns textos super maduros, dava prá ver que ele tem uma cabeça bem livre, curiosa. Um belo dia ele escreveu um post de despedida, porque o objetivo do blog dele era descrever as agruras de um vestibulando e ele tinha acabado de passar para medicina e nunca mais ouvi falar no sujeito. Esqueci o endereço do blog dele, mas é só dar um google no nome dele que dá prá achar. Vale a pena. E onde quer que ele esteja, desejo-lhe muita felicidade.

Obs: Explicarei minha ausência no próximo post, onde também vou contar a história de Jane Elliott

Quem é Jane Elliott?


Eram meados dos anos 90 vi um documentário espetacular no canal a cabo GNT, na época outro tipo de canal, sem esses programas sobre a vaidade das mulheres ou horas de programação voltada para homossexuais. Nada contra esses ou aquelas, o fato é que, pessoalmente, eu achava a programação mais bacana. Passava coisas como Dreamland (área 51 e afins) e Notícias de uma Guerra Particular (doc genial sobre a guerra do tráfico no Rio, dirigido pela Katia Lund e pelo João Moreira Salles). E o nome desse outro doc era Olhos Azuis. Tinha tudo isso gravado em VHS, mas as fitas mofaram quando me mudei para este chalé escuro e úmido no meio do mato. As lágrimas ainda vêm aos meus olhos quando me lembro dessas preciosas fitinhas - ainda tinha dezenas de episódios de Simpsons e South Park, sem falar nos vários programas da Semana Extra-Terrestre do Discovery Channel. Mas chega de reminiscências lacrimosas. Quero falar de Jane Elliott. Aliás, outra hora falo dela. Hoje é sábado à noite e, felizmente, tenho mais o que fazer.

terça-feira, 14 de março de 2006

Pão: O Seu Insuspeito e Onipresente Arquiinimigo!

Pesquisas sobre o pão indicam que:

1. 98% da população carcerária faz uso frequente de pão.

2. No Século XVIII, quando virtualmente quase todo pão era produzido em casa, a expectativa de vida era inferior a 50 anos, a mortalidade infantil era incrivelmente alta, muitas mulheres morriam ao dar à luz e doenças como febre tifóide eram endêmicas.

3. Mais de 90% dos crimes violentos são praticados até 24 horas depois do criminoso ter feito uso de pão.

4. Sociedades tribais que desconhecem o pão estão menos propensas a males como câncer, Alzheimer, Parkinson e osteoporose.

5. Está provado que pão vicia. Pessoas que se submeteram a um experimento onde se alimentariam apenas de água, em menos de 48 horas já imploravam por pão.

6. O pão é frequentemente a porta de entrada para o uso de substâncias mais pesadas, como manteiga, margarina, geléia ou mesmo requeijão!

7. Recém-nascidos se engasgam facilmente com pão.

8. O pão é assado a 400 graus centígrados. Um adulto morreria em menos de um minuto se exposto a essa temperatura.

9. O pão é feito de massa. Está provado que menos de meio quilo de massa é suficiente para sufocar um rato. O brasileiro médio come essa quantidade de pão em menos de um mês!

10. A maior parte dos brasileiros consumidores de pão não sabe diferenciar dados científicos de estatísticas idiotas e sem sentido.


À luz desses dados estarrecedores proponho que o consumo de pão passe a ser severamente restringido adotando-se as seguintes medidas:

1. Proibição da venda de pão a menores de 18 anos.
2. Criação da Campanha Publicitária: "Sou careta: não como pão".
3. Aumento do imposto sobre a venda de pão para financiar o tratamento dos males que essa perniciosa substância provoca.
4. Nenhuma imagem de pessoas ou animais deve ser usada para promover o consumo de pão.
5. Criação de cinturões anti-pão nos perímetros de escolas primárias.

Muito talento e pouco reconhecimento - Parte 4




Marisa Tomei: até que ela é razoavelmente famosa, mas num patamar bem inferior se comparada a estrelas do naipe de Meg Ryan ou Jennifer Lopez, mesmo já tendo ganhado um oscar (atriz coadjuvante em Meu Primo Vinny, início dos anos 90). Mas ela não soube aproveitar o momento em que estava por cima, atuou em muitos filmes ruins e, apesar de não ter caído em completo ostracismo, parece condenada a integrar o segundo time das atrizes de Oliú. Uma pena, já que além de muito bonita, deixa artistas como Sandra Bullock no chinelo. Alguns de seus filmes que valem a pena ser vistos: Chaplin, Grande Hotel, Tratamento de Choque (se bem que esse é meio cretino... veja apenas se gostar de comédias cretinas), e mais recentemente, Alfie. No entanto, é em Entre Quatro Paredes que ela teve seu melhor desempenho - aliás, um drama excelente, um dos grandes sacaneados do oscar de 2002, quando concorreu em 5 categorias e não levou nada: Melhor Filme (perdeu para Uma Mente Brilhante, que também é bom, mas inferior), Ator (Tom Wilkinson num páreo duro onde Denzel Washington foi premiado), Atriz (Sissi Spacek, bem melhor que a vencedora Halle Berry), Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante (ela mesmo, também injustamente, perdeu para Jennifer Connelly, linda, mas apenas competente). Atuou também em O que as mulheres gostam, mas na minha opinião esse filme é tão simplório que chega a ser desrespeitoso com o universo feminino.

Lembrando que os títulos ou nomes em negrito contam com minha preferência.

Sussex, Inglaterra

quinta-feira, 9 de março de 2006

Evangélicos celebram Dia Internacional da Mulher

A blogsfera é um mundo estranho. Talvez quase tão estranho quanto o mundo de David Lynch em "Veludo Azul". Um desconhecido deixa um comment, você vai na página dele, acha o conteúdo bizarramente interessante, clica num link dele e daí pula para outro, cujo título refere-se a algo escatológico. Mas, obviamente, nada supera a boa e velha realidade em se tratando de anormalidade. Pois foi no catarro.blogspot.com/ que vi uma notícia daquele tipo que a gente lê e depois balança a cabeça e resmunga baixinho: que merda de mundo é esse? Justamente no Dia Internacional da Mulher... Antes de botar o link prá notícia, o cara faz a seguinte introdução:Debaixo de todo santinho se esconde um filho-da-puta. Estou generalizando, sim. Veja você: 90% dos agressores de mulheres denunciados na zona leste de SP são evangélicos. Na igreja os caras pregam a paz. Em casa é porrada e humilhação em cima da mulher

"Das 3 mil mulheres que procuram ONG da Zona Leste que assiste vítimas de violência, 90% são evangélicas agredidas física ou verbalmente pelos maridos - que, na igreja, são exemplos de bondade. " Do Jornal da Tarde: www.jt.com.br/editorias/2006/03/08/ger36218.xml Acho que só essa chamada já resume bem o que quero dizer. Mas o miolo da notícia fornece uma perspectiva mais ampla desta verdadeira tragédia cotidiana. Como todo texto de tablóide, falta a isenção e objetividade do jornalismo verdadeiro e sobram tiradas apelativas. Mas, entre outras coisas ficamos sabendo, por exemplo, que as próprias igrejas que as fiéis frequentam não oferecem nenhum tipo de apoio ou aconselhamento às mulheres agredidas. O marido de Joana usa a própria Bíblia para justificar as agressões, recitando um versículo: "Mulheres, sujeita-vos aos vossos maridos". O mais absurdo - mas nem por isso mais incomum - é que as próprias vítimas passam a procurar sua culpa pelas agressões: "Não sei arrumar o guarda-roupa" ou "ele adora usar camisa social e eu não sei usar bem o ferro elétrico". A vida de Lurdes já não era fácil: não tolerava o cinismo de seu marido e amigos, comportamento imaculado nos templos, seguido por bebedeiras homéricas. Mas tudo piorou depois que foi estuprada; o marido disse que ela certamente incitou o estupro, atraindo o agressor, comportando-se de modo lascivo. Ela não tem a quem recorrer, na igreja dizem que o problema é entre ela e o marido e que psicólogo de crente é Jesus.

As igrejas evangélicas crescem em escala exponencial no Brasil. No Rio, o casal Garotinho defende a idéia de lecionar nas escolas públicas a doutrina criacionista em detrimento da Teoria Evolucionista de Darwin. Enquanto isso o Exército é mobilizado para dar uma satisfação à classe média em meio a uma verdadeira guerra civil que já se estende há anos. Não falei naquele post ..."a História se repete" que vivemos numa estúpida Era Medieval? Pois é...

Elas se espalham como erva daninha. Jogam baixo, aproveitam-se da fragilidade emocional
das pessoas e de suas necessidades não supridas para sujeitá-las a intensas sessões de lavagem cerebral. Tudo pelo dízimo. Temos que impedir isso! Minha irmã virou crente! E é uma pessoa esclarecida, morou fora, vai se formar em administração... Socorro!

Letra: A Bela e a Fera


Tenho que aprender a colocar música nesse blog. Uma das primeiras seria essa. Faz parte do disco "O Grande Circo Místico", mais um fruto da inimitável parceria Chico Buarque/Edu Lobo - que também rendeu o clássico "Saltimbancos", um disco exemplar, da rara estirpe de música brasileira de qualidade para crianças. O "Grande Circo..." também se encaixa nessa categoria. As músicas são bem diferentes entre si, igualmente ótimas, cada uma com seu próprio clima, uma verdadeira viagem auditiva. Sou muito grato a meus pais por terem me proporcionado o privilégio de ouvir discos como esse aos nove ou dez anos. Quando vejo as gerações posteriores à minha consumindo Xuxa e essas Britney Spears da vida fico revoltado e com pena. Tá certo que tivemos Menudo, mas em compensação a Globo fazia uns musicais antológicos (quem não se lembra de "Plunct Plact Zum", com Raul Seixas e mais uma galera da pesada?). Voltando ao Circo... talvez você o tenha e nem saiba. Se o pessoal da sua família foi esperta o bastante de não ter se desfeito de seus velhos LPs - minha mãe deu todos - há uma chance de você encontrar preciosidades como essa. Mas mesmo se esse não for o caso, não se aflija, está disponível também em CD. E vale cada centavo que você pagar para adquiri-lo, principalmente se tiver filhos pequenos. Neste link: www.cliquemusic.com.br/artistas/artistas.asp?Status=DISCO&nu_disco=922 pode-se ouvir o início de cada música; confesso que ao ouvi-las fiquei meio frustrado - são só 30 segundos - mas tempo suficiente para eu ser tomado por uma nostalgia avassaladora. A perfeição da infância, vários universos a serem descobertos, o mistério permeando tudo... A leveza da "Dança dos Clowns", o clima vintage supercool de "A História de Lily Braun", a energia contagiante de "Na Carreira", a singeleza da "Ciranda da Bailarina" - todas as músicas de Chico e Edu, mas cada uma com um intérprete diferente - e a minha favorita, "A Bela e a Fera", na voz de Tim Maia! Pelo menos a letra dá prá revelar:

Ouve a declaração, oh bela
De um sonhador titã
Um que dá nó paralela 
E almoça rolimã
O homem mais forte do planeta
Tórax de Superman
Tórax de Superman
E coração de poeta
 
Não brilharia a estrela, oh bela
Sem noite por detrás
Tua beleza de gazela
Sob meu corpo é mais
Uma centelha num graveto
Queima canaviais
Queima canaviais
Quase que eu fiz um soneto
 
Mais que na lua ou no cometa
Ou na constelação 
O sangue impresso na gazeta
Tem maix inspiração 
No bucho do analfabeto
Letras de macarrão
Letras de macarrão
Fazem poema concreto
 
Oh bela, gera a primavera
Aciona o teu condão
Oh, bela, faz da besta fera
Um príncipe cristão
Recebe o teu poeta, oh bela
Abre teu coração
Abre teu coração
Ou eu arrombo a janela

quarta-feira, 8 de março de 2006

Conto de Ficção-Científica

Podem me chamar de escapista, mas como o Tom Petty fala naquela música: "desculpe se há um lugar em minha mente onde vou de vez em quando". Fui prá outro planeta.

Estória interativa; você escolhe o final!

A incrível saga do Povo Odhacan

I

Num planeta distante, muito distante, vivia o povo de Odhacan, como eles próprios se denominaram. Na aurora da civilização odhacan, os homens ainda eram muito primitivos, tanto que nem chegavam a ter uma língua escrita, utilizando-se de desenhos toscos em cavernas para contarem suas histórias, ou seja lá o que eles tenham julgado digno de registro. Eventualmente eles foram evoluindo, deixando o nomadismo e estabelecendo-se com seus semelhantes nas primeiras cidades; fizeram descobertas, prosperavam, mas ainda faltava o mais importante: a fé, a religião, uma crença para dar um conforto à alma, respostas, algo para combater o pânico de se desconhecer o que está além dos portões da morte. Com o passar dos séculos, a política foi evoluindo até resultar em democracia, mas o clamor popular, cada vez mais forte, pedia uma resposta para o verdadeiro sentido de suas vidas. Um grupo da elite científica odhacan se reuniu com o governo pedindo verba para realizarem pesquisas sobre a origem dos odhacan. Isso poderia dar algumas pistas para os questionamentos filosóficos e espirituais do povo. O governo recebe a proposta com entusiasmo e oferece apoio total para uma expedição arqueológica.

Eis que os pesquisadores encontram inscrições antiqüíssimas, talvez as mais antigas de todos os desenhos em cavernas encontrados até então. Aos poucos, com intuição e paciência, conseguem decodificar as inscrições. Um tipo de HQ sem os quadrinhos, mas no mesmo estilo seqüencial. Elas contavam a história de um povo que veio dos céus em belas naves espaciais e contataram a população local, mostrando-se pacíficos e curiosos. Os primitivos concluíram que os visitantes eram os Deuses que eles nunca tiveram. A visita tinha aquele propósito: mostrar ao povo que algo maior e mais poderoso os observa dos céus, algo que deveria ser reverenciado como os pais de todos os nativos, pois foram os aliens que possibilitaram a existência de vida no planeta. Com o tempo as respostas viriam, disseram os visitantes, e no último desenho as naves deixam o planeta. As respostas nunca vieram.

II

A descoberta literalmente parou o país. Todos os odhacan pararam de fazer suas tarefas para discutirem sobre aqueles desenhos, que tinham por volta de 10.000 anos. Seriam os Odhacan fruto da generosidade de um povo superior? Quem eram eles? Por que não deram as respostas? Talvez porque soubessem que os nativos não as compreenderiam. Acima de tudo, os odhacan ansiavam por mais uma visita dos homens do céu.

Constrói-se um gigantesco emissor de ondas de rádio voltado para as estrelas, um mega-telescópio, além de um conjunto de radares receptores. Cogita-se até a construção de veículos espaciais, copiando o formato das naves nas inscrições, mas essa idéia é rechaçada, seria tentar se igualar aos Deuses, o que os odhacan viam como pecado.

Enquanto isso, as escavações prosseguem e revelam mais surpresas: inscrições próximas das já encontradas parecem descrever um mapa estrelar. De fato, representam com surpreendente exatidão a constelação de Magna-Tauri, tendo uma das estrelas em destaque. Não era preciso ser nenhuma autoridade no assunto para se concluir que os visitantes eram oriundos daquela estrela. Assim, o projeto de construção de veículos estrelares é retomado a todo vapor. O povo já não se importa com a suposta heresia e mostra-se ansioso para enviar um odhacan à moradia dos Deuses.

A Seita do Disco foi criada logo depois das primeiras descobertas e obviamente ganhou enorme popularidade, com adesões de odhacan de todos os tipos. Enfim poderiam preencher o vazio que antes havia na alma. E a Seita divulgou que depois de mortos, os odhacan iam para o planeta dos aliens, onde seriam felizes como nunca foram em toda a vida, exceto aqueles que não pagavam o dízimo, estes tinham suas almas queimadas como combustível das naves alien. Mas ninguém queria esperar a morte para experimentar a tal felicidade, então a construção do veículo estelar tornou-se prioritário para todo o planeta. Levaram anos para finalizar o projeto e a nave ganhou o nome de MOISES (Módulo de Operações Imponderáveis e Sondagem do Espaço Sideral). O dia da partida foi considerado o mais importante da história odhacan e tornou-se a partir daí feriado nacional. 3 astronautas embarcaram no veículo, cujo design foi inspirado nos discos desenhados nas cavernas. Calculou-se que levariam 6 meses até chegarem a Magna Tauri. Contudo, a comunicação da MOISES com a base de controle odhacan foi cortada faltando algumas horas para a nave atingir seu objetivo. O que aconteceu?

III


Agora a história está em suas mãos. Corações e mentes de milhões de seres mal aguentam o suspense que se criou depois que a comunicação com a MOISES foi cortada. Pelo amor do Deus Odhacan, decida o que houve com a nave. Não resisti e coloquei algumas sugestões, algumas bem cretinas:

1. Chegam nos aliens e são mortos. O povo acha que o desaparecimento e perda de contato com astronautas significam que o lugar é mesmo um paraíso que eles querem guardar para si próprios apenas. Constroem então uma esquadra de naves gigantes para transportar todo o povo odhacan a Magna Tauri e são exterminados por uma cruel raça alien. E nunca mais se ouve falar do povo Odhacan.

2. São bem recebidos, mas ao perguntarem sobre as respostas o alien se surpreende: “nós achamos que vocês encontrariam as respostas. Não somos deuses, ah essa é boa, somos um bando de engenheiros que não arruma namorada então ficamos fertilizando planetas como hobby. Eu, por exemplo, tenho 12.000 anos de idade e nunca dei um beijo de língua.”

3. Não há aliens como se imaginava, apenas um povo ignorante e primitivo. Os odhacan ensinam a eles algumas técnicas e são endeusados. Depois de “civilizados” os nativos, os odhacan regressam ao lar deixando uma carta estelar com sua localização no céu do planeta.

4. Aparentemente, não há vida em Magna Tauri. Entretanto, num episódio que nenhum astronauta soube explicar bem, uma “voz interna” orientou-os a se dirigirem a um determinado local, onde uma criatura humanóide os esperava. Ele não parecia nada contente, e disse: “Vocês não entenderam nada. A resposta não está nos lugares que vocês procuram, na realidade quanto mais vocês se julgarem próximos dela, mais distantes estarão. Será que vocês não enxergam que o segredo é a pergunta?” Não, os astronautas não entendiam e também ficaram irritados com o tratamento que estavam recebendo. Tanto esforço para nada? “Tentar achar uma resposta simples para o sentido da vida é como perseguir o pôr-do-sol a fim de adiar a chegada da noite. Vocês nunca vão alcança-lo, por mais que corram o horizonte sempre estará fora de seu alcance e a noite, inevitavelmente, virá. A não ser que fiquem eternamente dando voltas em seu planeta, mas qual o sentido disso?” Os 3 odhacan passaram da ira à perplexidade, e o humanóide continuou: “Vamos supor que eu soubesse a resposta – e eu não sei - e os informasse. O que vem depois do esclarecimento total? O que vocês buscariam então? A vida ganharia mais sentido, ou pelo contrário, perderia o sentido, já que não haveria mais mistérios? O que seria do dia se não fosse a noite? Voltem para casa: a resposta sempre esteve e sempre vai estar lá. Mas não a procurem, e quando vocês menos esperarem ela virá e vocês não vão sequer notar sua chegada.”

5. Na chegada avistam um gigantesco luminoso: “Disco S/A”. Quando desembarcam uma comitiva já os aguarda. Os aliens parecem pacíficos e amistosos mas há algo de artificial em sua simpatia. Então o chefe da comitiva começa a falar: “Representamos uma corporação galáctica que vende DNA para planetas sem vida. Plantamos a semente e esperamos a vida se desenvolver, se diversificar e evoluir. Deixamos algumas pistas que instigam a curiosidade dos nativos, esperando que eles venham até nós. Nunca falha, eles sempre chegam aqui esperando encontrar seus deuses. Rá, rá, como são ingênuos... Amigos, na verdade concedemos a vocês um empréstimo e vocês vieram aqui para acertarmos as contas. Temos mais coisas em comum que vocês supõem, mas algo nos diferencia: somos incapazes de sonhar. E os sonhos dos outros são nosso alimento, sem eles nós morremos. Então a proposta é a seguinte: implantaremos chips em seus corpos que vão servir de emissores de sonhos. O chip não tem efeito colateral algum e funde-se a seus organismos a ponto de os seus descendentes o herdarem como parte de sua cadeia genética original. Queremos apenas que vocês voltem e tragam mais odhacan para serem chipados.” Um astronauta pergunta: “E se nos recusarmos a receber esse chip?” “Aí vocês estarão declarando guerra à Disco S/A e destruiremos seu planeta bombardeando-o com torpedos anti-matéria.” “Porque vocês esperam ser visitados ao invés de simplesmente irem aos planetas que colonizaram e chiparem toda sua população?” “Questão de economia: para que gastar com naves e combustível se sabemos que nossos clientes virão até nós?” E assim o povo odhacan gradualmente foi-se tornando escravo da corporação. Ao contrário do que foi dito aos astronautas, o chip não só se apropria de seus sonhos como impede os odhacan de lembrá-los. O fim dos sonhos foi o primeiro passo da marcha que levará os odhacan à extinção.