quinta-feira, 6 de abril de 2006

Jane Elliott também tem um sonho

Antes de tudo, gostaria de explicar minha ausência: meu computador sofreu um curto-circuito causado por um raio e foi pro espaço. Escrevo de uma lan house e me esforço para concentrar, tarefa árdua, visto que estou cercado de adolescentes histéricos matando uns aos outros virtualmente(?).
Mas vamos ao que interessa: no último post prometi falar de duma tal Jane Elliott. Uma leitora já sacou quem é (pô, Bia, estragou o clima de suspense que eu quis criar). Mas quero dar mais detalhes. Para isso, vamos imaginar que estamos entrando num túnel do tempo - coisa mais clichê... - e regressando à loucura revolucionária do summer of love de 68 no E.U.A. Você sai do túnel e vê que foi transportado para uma típica cidadezinha americana. A data é 4 de abril de 68. Enquanto caminha pela Church Street, a rua principal, você percebe que aqui não há negros. Em seguida você chega na escola primária local e através de uma janela dá uma espiada numa sala de aula. Adivinha quem é a professora? A própria, Dona Jane. Como boa expoente de sua geração, ela se preocupa com temas como igualdade racial, conceito que coloca a América em ebulição nesse momento: protestos, confrontos, violência, sobretudo nas regiões mais conservadoras. E como falar em racismo para uma classe composta majoritariamente de WASPs (white, angle-saxon, protestant)?
Voltemos à nossa exploração além do espaço-tempo. Deixamos de observar a aula da Tia Jane porque notamos um rebuliço à nossa volta: pessoas andam prá lá e prá cá falando alto e discutindo exasperadamente, muitas escutam seus rádios atentamente, grupos se aglomeram ao redor de tvs. O que houve, você pergunta a um transeunte. Você não sabe? Martin Luther King acabou de ser assassinado. Seu olhar se volta para a sala de Jane: ela acabou de ser informada da tragédia, e visualmente abalada, cancela a aula naquele momento.
Jane ainda não sabe disso, mas esse evento provocaria uma guinada em sua vida que a transformaria numa das figuras mais polêmicas de seu país. Chocada com a crescente brutalidade nos conflitos raciais, ela se sente na obrigação de contribuir de algum modo na educação de seus alunos para que eles não se tornem racistas como boa parte de seus pais, quebrando a corrente da intolerância e da estupidez. Uma coisa já estava clara: a tarefa seria difícil, implicaria em bater de frente com os paradigmas incutidos naquelas crianças desde sua mais tenra idade.
Naquela noite nos a acompanhamos até sua casa e vemos que ela passa a noite em claro. No dia seguinte vamos com ela até a escola e no início da aula ela anuncia que hoje os alunos fariam um exercício diferente. Ela apresenta aos alunos uma tese absurda, mas fundamental para a realização do exercício: a cor dos olhos determina se você é inferior ou superior. Quem tem olhos azuis é mais inteligente, mais rápido, tem mais chances de se dar bem na vida. Aqueles com olhos castanhos são invariavelmente burros, preguiçosos e pouco confiáveis. A turma foi dividida de acordo com essa característica e a fim de evitar dúvidas ela colocou um adereço nas roupas dos castanhos - como os nazistas faziam com judeus, ciganos, gays etc. Ao longo do dia, os azuis são bem tratados, ganham privilégios e elogios; enquanto os castanhos eram discriminados a ponto de não poderem usar o mesmo bebedouro dos azuis. A velocidade com que essas mudanças afetam o relacionamento dos garotos é estarrecedora: logo os azuis se transformam em pequenos ditadores, desprezam, subjugam e humilham os castanhos. Estes, por outro lado, se tornam medrosos, tímidos e arredios. Mas isso não é tudo: as crianças introjetam seus novos "papéis sociais" de forma tão profunda que o rendimento acadêmico dos castanhos cai drasticamente, enquanto o oposto ocorre com os azuis. Céus, fiquei abismado particularmente com esse efeito. Como somos vulneráveis e sugestionáveis, quão poderoso é o ambiente na formação do caráter das pessoas!
Permanecemos alguns dias acompanhando a rotina de Jane e testemunhamos quando ela resolve reverter a situação, contando a seus alunos que os cientistas haviam cometido um erro e que na verdade aqueles com olhos castanhos são superiores aos olhos azuis. Mais uma vez presenciamos as mesmas cenas de humilhação, às vezes exacerbadas pelo fato de os castanhos aproveitarem a chance de se vingarem daqueles que os subjugaram. Obviamente, ela finaliza o exercício esclarecendo que aquilo tinha sido apenas uma simulação, que todos eram igualmente inteligentes e capazes não só naquela sala de aula, mas em todo o mundo.
Jane provou, de uma forma mais contundente que ela jamais imaginara, como a discriminação se agarra no fundo de nosso subconsciente tanto pelo opressor como pelo oprimido. Ela não mandou que os alunos se relacionassem diferentemente, disse apenas que eles eram diferentes, e mesmo assim eles quase que no mesmo instante adquiriram padrões de comportamento discriminatórios, provavelmente porque eles já haviam absorvido oum comportamento discriminatório de seus pais ou de outros adultos. Felizmente, ela também provou que o racismo pode ser "desaprendido": aliás, um trecho do documentário que nunca vou esquecer mostra a alegria e alívio das crianças ao jogarem no lixo os adereços que usavam nas roupas e indicavam sua suposta condição inferior.
Agora, imagine um americano branco, louro, olhos azuis, boa situação econômica, e morador de uma dessas cidadezinhas sendo submetido a esse exercício. O documentário mostra caras como esse chorando como crianças no final do exercício e dizendo que nunca imaginaram o que é estar do outro lado da realidade que vivem, o lado do oprimido, do menosprezado, marginalizado. O lado daquele que pensa que a vida é uma festa para a qual ele não foi convidado. Num seminário de duas horas sua concepção sobre a Humanidade muda da água para o vinho. Contudo para ele, o sofrimento acaba com o fim do exercício, mas e quanto a aqueles cujo "seminário" se inicia no momento em que nascem e prossegue até o fim de suas vidas? Francamente, é de pirar, e ao mesmo tempo explica um pouco porque todos os dias ouvimos notícias de atos de violência bestiais, o quanto a vida passou a valer tão pouco, a forma como as virtudes são abandonadas para darem lugar à busca de conquistas materiais a qualquer preço...
Ok, entramos de volta no túnel do tempo, é domingo à noite, estamos um pouco abalados com a aspereza do exercício de Jane. Submeter aquelas criancinhas a um jogo tão cruel... Então você liga a tv e sintoniza no Fantástico para ver umas amenidades e desviar seus pensamentos prá outro lugar. O Bial anuncia a exibição de um documentário: "Falcões". Precisa falar mais alguma coisa?
Obviamente, Jane foi criticada, perseguida, ameaçada, seu filho foi espancado na rua, foi demitida, teve que se mudar mais de uma vez de cidade, mas nunca desistiu de seu Blue Eye Project, até que gradualmente foi obtendo reconhecimento e passou a se dedicar exclusivamente a esses seminários, viajando por todo o país. Suas práticas foram se sofisticando, pois a discriminação não se resume à cor da pele, atinge sua idade ou sua orientação sexual ou religiosa.
O documentário ainda procura aquelas crianças que assistimos serem submetidas ao primeiro dia que Jane aplicou seu exercício muitos anos depois. Eles contam que no mesmo dia foram para suas casas ensinarem seus pais o quanto o racismo é errado, injusto e danoso. Hoje são pessoas mais positivas e sensíveis. E encerra com aquele famoso e maravilhoso discurso de um sujeito que viveu e morreu por um ideal - algo tão raro hoje em dia que é confundido com loucura ou burrice:

Now, I say to you today my friends, even though we face the difficulties of today and tomorrow, I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream. I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: - 'We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal.'

Martin Luther King Jr., Speech at Civil Rights March on Washington, August 28, 1963

6 comentários:

Carol disse...

Fantástico! Agora sei exatamente quem é.

Mudando de assunto: você é louco ou coisa do tipo? Obrigada, mas prefiro o mistério. Nu artítico é demais! ;)

landika disse...

contundente, serio mesmo! um post altamente contundente, historias como essa merecem post, merecem ser relembradas

Mgylin disse...

Ei Rumble! Fico desconjuntado em saber que alguém fica desconjuntado ao ler lá. Comenta o que quiser, não esquenta a cabeça.
A Jane parece o tipo de pessoa que me causa a interrogação "de onde é que tira forças?"
O texto do Martin, me faltou pouquinho pra entender =(
Té.

Srta. Bia disse...

Pô, foi mal. Não queria acabar com o suspense. Espero que a lan house não tenha sido muito traumática ;-).

Mas o que falei não é nada comparado ao conteúdo completíssimo que vc postou. O risco que ela correu implementando essa técnica com crianças e ao mesmo tempo o sucesso obtido mostra que idéias como as de King não morrem. Importante lembrar também de atitudes como a de Rose Lee Parks que recusou-se a ceder seu lugar para um homem branco num ônibus.

Falcão é uma proposta do MVBill que mesmo com todos os defeitos apontados procura mostrar uma realidade que permanece invisível. Mas talvez um documentário que Jane ficaria mais chocada seja Ônibus 174 que narra a trajetória de Sandro, o sequestrador e discute o tempo inteiro a invisibilidade injusta que permeia a sociedade.

E não foi o Bial, foi a Glória e o Zeca...rs.

Anônimo disse...

Simplesmente muito bom.

Christian disse...

Acho o preconceito uma coisa abominável, asquerosa. E acho asqueroso o trabalho desta mulher. Acho curiosa a forma como ela se diz combater o preconceito, agindo da mesma forma, ainda mais grave: utilizando crianças.

Sou contra qualquer prática preconceituosa, seja por quinze minutos, ou de de que forma for.

Tenho pele clara e já sofri preconceitos dos mais diversos tipos por outros motivos. Se ela, sem me conhecer, só pelo fato de eu ter olhos claros, me aplicasse seus "testes" preconceituosos para me "ensinar"... não importaria o que acontecesse depois, ela ia levar um merecido castigo, para deixar de ser hipócrita.