quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Grandes Enigmas da Humanidade - Parte 3 - Mitos do Nascimento do Universo

Achei um livro fabuloso que eu julgava ter perdido. Sarcasticamente, precisei bater o carro para achá-lo, ao limpar o porta-malas quando deixei o Ka na oficina, descobri o elegante volume de capa dura e formato grande debaixo do revestimento. Vamos a ele:

Nos últimos cem anos os cientistas têm se revelado as maiores vítimas de seu próprio ceticismo. Quanto mais pesquisam, mais estranha parece a realidade e assim, subvertendo crenças criadas por eles mesmos, acabam dando espaço para pesquisadores menos rigorosos, estudiosos da paranormalidade, Danikens da vida, os doidões de quem falei no último post. Ninguém mais discute que espaço e tempo são mesma coisa, que essa coisa pode ser dobrada, torcida, esburacada; que pode haver milhões de universos, aqui e agora, que teria sido melhor não ter olhado o átomo tão de perto, pois o que se vê simplesmente não pode ser explicado em palavras, não sem usar imagens que apenas transmitem uma pálida idéia do que de fato acontece. E olha que estamos falando apenas da física.


Na biologia, as descobertas têm sido não menos estarrecedoras. Animais (inclusive nós) se orientam pelo eixo magnético da Terra ou pela posição de astros no céu; boa parte dos seres vivos possui relógios biológicos que podem ser orientados pela luz, por mecanismos internos ainda desconhecidos ou por astros que nem os animais podem ver. Tudo levando a crer que, na verdade, espaço e tempo são criações humanas que foram dissociados para tentarmos submeter o ambiente a nós, o que equivaleria, em bom português, a tapar o sol com a peneira, além de ser uma grande tolice.

E essa história toda sempre acaba nas mesmas perguntas, tão velhas quanto nós. O espaço-tempo existiria sem a nossa percepção? Uma folha que cai de uma árvore sem que ninguém esteja observando realmente cai da árvore? O Universo teve um começo, agora estamos em algum lugar do meio e um dia terá um fim? O futuro já está decidido ou podemos interferir nele? Se há civilizações de outros planetas nos visitando, elas teriam essas respostas? E como elas chegaram tão longe sem se auto-aniquilarem durante seu desenvolvimento? São perguntas filosóficas, também científicas, mas no passado pertenciam ao campo da religião (exceto as duas últimas, que eu inventei).

É duro viver em uma realidade onde nada tem explicação. A fim de confortarem suas almas, todos os povos primitivos criaram sua própria cosmogonia, sua gênese. Porque algumas se assemelham tanto? "Antes que o céu e a terra tomassem forma, tudo era vago e amorfo", dizem os chineses. "No início Deus criou o céu e a terra. E a terra era disforme e vazia", segundo a Bíblia."Onde não havia nem céu nem terra, soou a primeira palavra de Deus", de acordo com os Maias.


Mas o bagulho fica louco mesmo quando constata-se que as mais modernas teorias acerca da ordem universal coincidem com mitos elaborados (?) por homens que presumivelmente tinham técnicas primitivas de agricultura e muitas vezes ainda moravam em cavernas. A idéia de que o Universo funciona de forma cíclica, contraindo e expandindo-se, teoria mais provável hoje em dia, já era defendida pelos hindus: para eles o Deus Shiva dança eternamente no ritmo das batidas de seu tambor, criando, destruindo e recriando o Universo. Alguns povos inventaram mitos da criação que se iniciavam com a quebra de um ovo... olha o Big Bang aí, mas os indianos parecem insuperáveis, tanto na riqueza de suas lendas como o quanto acertadas elas se mostraram. O Veda, conjunto de livros sagrados hindus escritos há cerca de 3500 anos, difere dos mitos ocidentais ao inverter a ordem das coisas: primeiro há o espaço, para só em seguida surgir o agente criador. Essa simples inversão diz muito sobre o hinduísmo: tudo que compõe o mundo, todas as coisas e seres, são manifestações de um único Deus. Eles não crêem na realidade na forma como a concebemos, para eles tudo é ilusório, inclusive o tempo. Um ano de um Deus corresponde a 360 anos humanos e 12 mil anos divinos equivalem a uma piscada de olho do Deus Vishnu; 1.000 piscadas de olho de Vishnu completam um ciclo de criação e destruição do mundo. Feitas as contas, chega-se à cifra de 4,3 bilhões de anos humanos. Se o fato de simples pastores conceberem um espaço de tempo de bilhões de anos em uma era tão remota é admirável, que dizer do detalhe que eles acertaram a idade aproximada do nosso planeta - cerca de 4 bilhões de anos? Coincidência?

Em um círculo de fogo, Shiva faz a dança do Universo nessa peça de bronze do Século X. O tambor em uma das mãos simboliza o som da criação, a outra detém a chama da destruição; a terceira assinala a libertação do medo, a quarta, apontando o pé erguido, simboliza o desprendimento. O pé direito pisoteia Asura, o Demônio da Ignorância.

Poderia encerrar aqui o post, mas como disse, o livro é realmente fabuloso, pulando dos hindus para outra crença indiana, o jainismo. Não por acaso, adotaram o símbolo que conhecemos como suástica nazista para representarem suas crenças, uma pena que o símbolo perdeu sua conotação original, que queria dar uma idéia de movimento em ciclos. Eles não têm um mito de criação, pois acham que o tempo é cíclico, sem começo nem fim; de fato o tempo é uma roda dividida em 12 raios, cada um representando uma era do mundo. No topo da roda temos uma era denominada Muito Bela, Muito Bela. Quando neguinho fala que nasceu na época errada, que queria ter vivido os dourados anos 50 ou os 30 ou alguma asneira parecida, é porque nunca ouviu falar dessa era concebida pelos jainistas. Só para começar, nela cada pessoa tinha cerca de 10 quilômetros de altura e 256 costelas. Isso mesmo. Ninguém passava dos 30 ou 35 anos sem encontrar sua alma gêmea: para facilitar o processo, as pessoas nasciam aos pares, sempre um homem e uma mulher, e seu irmão ou irmã calhava de ser sua cara metade, vocês se casavam, viviam milhares de anos, tinham filhos perfeitos apesar da consanguinidade e o melhor: sua sogra era sua mãe! O mundo era feito de açúcar, o vinho corria em rios e as árvores davam de frutas a pedras preciosas, passando por caviar iraniano e filmadoras japonesas. Fico imaginando um cara de 10.000 metros de altura sentado nas margens do Amazonas e enchendo a cara... na hora de levantar e ir pra casa é que devia ser complicado manter o equilíbrio de pileque e com essa altura toda. Com essas dimensões, as casas deviam ter o tamanho de países, meu quarto em Minas e a varanda de frente para a baía de Angra dos Reis. Será que não tinham problemas de densidade populacional, sem falar em diabetes e alcoolismo? Aparentemente, a palavra "problema" era desconhecida nessa era, que para arrematar durou no mínimo "400 trilhões de oceanos de anos". Desculpem as gracinhas, não pude evitar.

No entanto, rodas foram feitas para ter um comportamento dinâmico, isto é, rodar, e a era Muito Bela, Muito Bela demorou mas passou. Seguiu-se um período onde as pessoas tinham metade da altura e assim sucessivamente até chegarmos no canto inferior da roda, quando ninguém passava do meio metro de altura, tinha apenas 8 costelas e a expectativa de vida era de 20 anos. Felizmente essa era durou apenas alguns milhares de anos. Legal mesmo foi a forma encontrada pelos jainistas para representar sua estrutura temporal. O Universo é uma mulher gigantesca, a Terra na altura de sua cintura. Abaixo dela havia 7 níveis de inferno, acima, 14 níveis celestes. No meio de tudo isso flutuavam nossas almas, cada uma em determinado estágio de evolução e, assim como no hinduísmo, más ações nos puxavam para baixo e as boas empurravam para cima. Mas chega de jainismo, uma religião louca a ponto de seus adeptos se matarem de fome, tamanho o desdém que nutrem pela vida material. Aí também não, até onde sei essa é a única vida que possuo e não vou desperdiçá-la na expectativa de um pós-morte mais gratificante.

Em tempo: o livro de onde tirei isso tudo é da coleção "Mistérios do Desconhecido" da Time-Life e chama-se Tempo e Espaço.

Um comentário:

Lidiane disse...

Bom, pra não ficar um comentário gigante, vou t.e.n.t.a.r escrever um pouquinho só.
Prometo.
Mas... não posso deixar de dizer que dei uma gargalhada quando li:
"Mas o bagulho fica louco mesmo".
Rumble, isso é coisa de "mano corintiano". :P
Muito engraçado imaginar você dizendo isso.

Bater o carro valeu de alguma coisa, né? Achou o livro! :)
Só espero que você não tenha se machucado.

Ah! E essa de achar a alma gêmea até os 35 me agrada.
Nhé nhé nhé!

Agora falando sério. Sou louca por mitologia. Já percebeu, né?
A questão da suástica é interessantíssima. Já acompanhei uma discussão bacana sobre a inversão do seu significado e de sua origem. Adorei, claro!

Sobre a era perfeita, alguns brahmins de hoje, que aliás, além da Índia, estão em todo o mundo, acreditam na Era do Ouro, da Prata, do Ferro, do Bronze. E dizem que hoje, estamos na era do diamante, ou confluência. E que o tempo também é cíclico.
Vico, filósofo italiano, falava algo sobre tempo em espiral, que está mais ou menos de acordo com isso, guardadas, é claro, as proporções. Já que uma coisa é mitologia, outra é filosofia.
Ambas deliciosas.

Beijo pra você e pros dez bichos.