quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Em busca do Velho da Carrocinha de Lenha - Capítulo 4 (cont.)

Recapitulando: Dario enfim encontra o cara na carroça com lenha, vai atrás dele e depara-se com um tipo de ritual primitivo, pessoas nuas dançando em volta do fogo. Recebe um forte golpe na nuca e cai desmaiado. Nesse momento o leitor é apresentado a duas escolhas: a cerimônia é um rito esotérico pancadão (1a), ou trata-se de um julgamento pouco convencional (1b). Aqui vão os desdobramentos da segunda opção. O autor recomenda a leitura dos capítulos anteriores antes de prosseguir aqui.

Dario acorda do nocaute confuso. Não sente dor onde foi golpeado. Está sentado em um tipo de poltrona, tenta se mexer e percebe, estupefato, que seus músculos simplesmente não respondem a seus comandos, como se estivesse preso naquele assento. Olha em volta, num horror crescente, mas tudo são trevas, exceto por um poderoso holofote frontal que o impede que veja qualquer coisa, no melhor estilo julgamento do herói. Algemas o prendem a uma cadeira. Seu pavor aumenta e irracionalmente, ele grita: "Fidélio! A senha é Fidélio!" Para sua estupefação ouve risadas maldisfarçadas que vêm detrás da luz ofuscante. Em seguida, uma voz feminina bem sexy destaca-se entre os risos. Ela ri, mas de modo amargo:
"Pobre Dario. Mesmo na pior circunstância possível, cativo de pessoas que já o atacaram, talvez mais perto do que nunca da morte, ainda se agarra a seu mundo fantasioso. A vida não é filme, querido. A realidade não é a reprise de alguma porcaria que goste, onde todos se comportam previsivelmente de modo que você seja, senão o herói, pelo menos o protagonista. Lembra-se da sonda? Você tinha ido ver um filme onde um tipo de nave é miniaturizada e injetada em um corpo humano. Como aquilo atiçou sua imaginação... uma sonda pilotada por você, que exploraria o mundo a seu redor ao mesmo tempo em que faria jornadas de autoconhecimento, pois o movimento exterior é análogo ao movimento interior. Você escreveu essa frase em seu diário, um jovem de 13 anos cheio de idealismo, apesar da idade conturbada, o desejo de viver lutando contra o medo e a apatia. Dario, o que você fez com a sonda? Para onde você a levou? Não percebe que nos últimos anos tudo que tem feito é dar voltas e voltas em torno de si mesmo? Sua Enterprise, em vez de explorar o desconhecido, travar contato com ele até incorporá-lo, orbita em torno de uma lua desabitada, escura e fria. E o tempo é implacável, a cada segundo você perde uma oportunidade de mudar e crescer."

(no credits)

De algum lugar mais afastado ouve-se um som estranho, indefinível. Um ruído constante, mas discreto. Dario não sabe o que dizer. Quem são aquelas pessoas? Como saberiam da história da sonda, ele nunca tinha comentado aquilo com ninguém. "Eu... eu vou chamar a polícia se não me soltarem agora!" A voz ri de novo:

"Viu as pessoas dançando nuas em torno da fogueira? Em algum ponto de suas vidas elas ouviram o chamado e o atenderam. E se prepararam para este dia. Você também foi convocado. Lembra-se daquele sonho em que você e seu pai voavam como pássaros e ele te mostrou a Praça da Liberdade? Houve vários outros sinais, mas você nunca se permitiu compreender. Precisamos da ajuda de nosso agente para atraí-lo até aqui. Isso chamou nossa atenção. Seu incrível medo de viver a vida, correr riscos, um embotamento dos sentidos, um senso de preservação contraditoriamente auto-destrutivo. Um exemplar-símbolo da Humanidade."

"Você pertence a uma espécie tão confusa e desamparada. Sequer sabem de onde vêm, muito menos para onde vão. Descendem mesmo dos símios? Ou seriam híbridos, fruto da miscigenação de uma raça do além com os símios? Ou seriam mesmo, como muitos de vocês gostam de pensar, filhos de Deus, criados à sua imagem? Entendemos sua angústia, a necessidade de preencherem seu vazio espiritual com entidades com quem se identifiquem. Mas o que nos deixa maravilhados é o fato de esse desamparo não tê-los impedido de chegar tão longe sem se auto-aniquilarem. Dario, você e seus pares são capazes de fazerem coisas tão belas e ao mesmo tempo cometem atos tão repugnantes... quem são vocês, afinal? Que direção a sonda da Raça Humana segue?"

Philip Straub (Cityscape1)

Ele nota que o grupo detrás do holofote começa a andar na direção do ruído. De repente, um conjunto de luzes acende a 4 metros de altura.

"Dario, o que disser agora vai decidir seu futuro. Uma pergunta banal, mas a única realmente relevante. Qual é o sentido da Vida?"

Dario pode dizer: "Quem busca o sentido da Vida na verdade quer sentir a experiência de estar vivo em sua plenitude." (Joseph Campbell) Ou "A Vida é como plantar uma árvore cuja sombra você nunca vai aproveitar". (Nelson Henderson) O leitor também pode dar um palpite, a vida de nosso herói está por um fio...

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Em busca do Velho da Carrocinha de Lenha - Capítulo 4

A história deu uma engrossada. O leitor/a pode decidir entre os 3 caminhos propostos. Vou começar desenvolvendo o primeiro, onde Dario inadvertidamente presencia um ritual místico e toma uma pancada na nuca que o faz desmaiar. Tá ficando complicado, tem que pôr em ordem, mas é só seguir os capítulos.

Opção 1 (continuação) Escolha:
1a) se Dario descobrirá segredos esotéricos, envolvendo bruxaria
1b) se será submetido a um julgamento surrealista, onde sua existência será questionada. (Essa não deu pra fazer hoje)

1a) O Escolhido
Dario abre os olhos. Tenta se mexer mas percebe que está com mãos e pés atados a uma cadeira. Seus olhos estão vendados. Ele grita: "Pelamor de Deus, o que está acontecendo? Eu não fiz nada, só segui o cara na carroça por um pouco de lenha." O silêncio reforça o desespero de Dario: "Por favor, não me matem, eu não vi nada, não sei quem são vocês e..."
"Estávamos te esperando, Dario Bosside." Uma voz masculina, grave, forte, experiente.
"Há muito tempo, aliás. Acompanhamos sua infância perfeita, muitos mimos, o mal que os mimos te causaram quando entrou na adolescência, a juventude confusa, a recusa em amadurecer, seu estado atual de desorientação. Estávamos preocupados, por outro lado sabíamos que teria seus percalços num mundo como esse, você não foi feito pra ele, todo potencial Sacerdote tem as mesmas dificuldades".
"Como é que é? Sacerdote? Vocês estão vendo muito telecine action. Gente, esse papo parece texto daqueles filmes de suspense bem ruins. Vamos cortar a besteirada: que é que querem de mim?" A voz ignora Dario e continua:
"Com o tempo ficou claro que uma hora ou outra você encontraria seu centro, o momento em que se revelaria de onde vem realmente e qual seu papel. Esse momento chegou, meu filho. Você não é quem pensa ser, sabe apenas parte da história. Sabe que foi adotado ainda muito jovem, mas não tem idéia de quem sejam seus pais biológicos. Eram pessoas muito especiais, que abriram mão de suas vidas para gerar o líder que vai possibilitar mudanças tão radicais que, por enquanto, você será poupado de conhecê-las. "

Bacchanalia, por Auguste Léveque (1864-1921)

"Para sua total compreensão é necessário que voltemos aos tempos da Roma antiga. Naquela época, Dario, antes de a Igreja Católica começar o massacre de todos cultos pagãos, as mulheres celebravam seu poder em cerimônias secretas, conhecidas como bacanais. Pouco a ver com a conotação atual do termo. Cultuavam Baco, Deus do Vinho em festividades onde predominava o hedonismo. Você quer fazer fogo, não é, foi isso que o trouxe aqui. Sabia que as bacantes mergulhavam tochas acesas nas águas do rio Tibre e mesmo assim não apagavam?"
"Até que surgiu Paculla Annia, uma sacerdotiza italiana do sul, que mudou totalmente a natureza das bacanais. Foi ela quem autorizou a presença masculina nos ritos, transformando-os não só em festas do vinho e da libertinagem, mas em celebrações em homenagem à Mãe-Terra, à vida, à liberdade. Houve relatos de telepatia e clarividência nesses eventos. Não demorou muito para a popularidade de Annia chegar aos ouvidos das autoridades romanas, que, sentindo-se ameaçadas, proibiram as bacanais em 186 A.C. Pouco se sabe sobre Annia depois disso, exceto que teve dois filhos."
Dario não sabia o que pensar. Aquelas pessoas loucas o agrediram, sequestraram, e mesmo assim ele começa a sentir-se mais à vontade e tranquilo. Na verdade, Dario estava adorando a história.
"Com a perseguição às bacantes se intensificando, fazia-se necessário reunir as melhores sacerdotizas em uma Ordem Secreta, para manter vivas suas tradições e sabedoria. Criou-se a Ordem Divina da Manticora, criatura mitológica oriunda da Pérsia. Com corpo de leão, cabeça humana e cauda de escorpião, ela tornou-se para nós o símbolo da capacidade feminina de não apenas nutrir e proteger, mas também de atacar e destruir. Em cada mulher residem os pólos opostos cujo equilíbrio é determinante na harmonia do cosmos".

Já quase se divertindo, Dario pergunta "kikotenho a ver com isso?"
"Já prestou atenção em seu nome, Dario Bosside?" "É de origem francesa." "Ah, é? Já ouviu falar em alguém com esse sobrenome? Você já esteve na França, conheceu algum Bosside?" Não, Dario nunca tinha ouvido falar em Bosside nenhum.
"Meu filho, você é uma pessoa singular, comprovadamente descendente direto de Paculla Annia. Há apenas mais uma pessoa que conhecemos com a mesma ascendência e quando conhecê-la, uma bela jovem, por sinal, vocês serão coroados Rei e Rainha."
"Rei do quê? Vocês são loucos! Maldito Código da Vinci, aposto que leram o livro e tiraram essas idéias alucinadas dele."
"Sabe o que é um anagrama? Rearranje as letras do seu nome e terá: Rei dos Diabos."

Meu Deus do Céu, sou o Rei dos Diabos... Dario pensa. Explica que aquilo é obviamente um grande baque, que toda aquela tensão o deixou com vontade de ir no banheiro. Ele é desamarrado, e ainda vendado, é acompanhado por uma pessoa para um canto mais afastado da tenda. Pede licença ao "guarda", não consegue urinar com alguém olhando. Aí ouve um baque surdo, seguido de um grito de dor. Ele retira a venda e vê o capanga desmaiado no chão. Do seu lado, um velhinho com uma bengala na mão. Muito parecido com o garoto da carroça de lenha. Parecido demais até. "Vem comigo, minino. Essa gente num presta. Meu cavalo corre que é uma beleza". Dario sente a visão turvar-se por um momento. Sua sanidade sendo posta à prova: aquele velhinho é o mesmo jovem da carroça que perseguiu.

E agora? Foge com aquele ser de idade indefinida, correndo o risco de ser pego? Ou evita o carroceiro e volta para a tenda onde é "Rei"?

Perca tempo na web

Prá aqueles momentos de marasmo no trabalho ou em casa, coisas pra distrair. Uns sites meio loucos que achei por aí:

-http://www.foulbeast.com/zoomquilt/c.swf?path=zoomquilt.swf
idéia legal, execução ruim. O desenhista tem um traço pesado e usa as cores erradas. Mas não deixa de ser uma viajadinha bacana. Fique atento nos detalhes.

-http://hollywoodrecords.go.com/polyphonicspree/questfortherest/
joguinho tipo rpg, vc tem um cenário no deserto, decifre os enigmas.

-http://patterngame.com/linesuperfollow.swf
pontos coloridos formam padrões psicodélicos, coisas como a estrutura do átomo ou azulejos andaluzes de influência mourisca, depende da forma como olha; explore à vontade.

domingo, 12 de agosto de 2007

O Corpo Eterno do Monge Budista

Essa notícia é meio velha, talvez já tenha ouvido falar.

Itigelov, data indefinida, talvez por volta de 1910

Hambo Lama Itigelov era uma figura popular na Rússia. Líder da igreja budista nesse país, notabilizou-se por seu empenho em ajudar seu povo na Primeira Guerra. Em algum dia de 1927 comunicou aos monges budistas que sua morte estava próxima, mesmo sem nenhum indício de quaisquer doença, por isso passaria a maior parte do tempo meditando. Poucas horas depois ele faleceu.

No testamento Itigelov requisitou que fosse enterrado sentado na posição de lótus. Havia também o pedido de exumação do corpo após algumas décadas. Ela foi feita em 55 e 73, mas os monges não relataram nada, pois temiam a rigidez do regime comunista. Foi só em 2002 que seu corpo passou por uma exumação mais acurada, com a presença de especialistas. O cadáver estava extremamente bem conservado, sem sinais de deterioração; músculos, mucosas, pele, tudo em excelente estado. Até aí, nada de especial. Mas há um detalhe sinistro: ele não foi embalsamado nem mumificado. O relatório final diz: "o corpo está nas condições de alguém que morreu há 36 horas". Nenhum cientista se atreveu a tentar explicar o fenômeno.

O corpo exumado em 2002

Nos dois anos seguintes seu corpo foi mantido ao ar livre, permanecendo imutável. Trata-se do único caso conhecido de um cadáver imperecível. Outros corpos já foram encontrados em condições semelhantes, só que tinham passado por algum processo de conservação, e sua exposição ao ar livre rapidamente os degradava. Há quem diga que Itigelov permanece vivo, imerso num estado de hibernação, algum tipo de nirvana. Mestres budistas sustentam que pode-se repetir a façanha utilizando-se de práticas iogues e obtendo a máxima purificação do organismo antes da morte.

Por dois anos o corpo resistiu ao clima, a fungos, parasitas, a toda e qualquer força negativa. Itigelov disse antes de morrer que estava deixando uma mensagem para o mundo todo. Essa mensagem não contém palavras. Cabe a nós compreendê-la.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Em busca do Velho da Carrocinha de Lenha - Capítulo 3

(Ok, interrompemos a narrativa no momento em que Dario avista pela janela do quarto o tão procurado velho com a carroça cheia de lenha sequinha. É madrugada.)

Dario diz que vai na cozinha comer algo, em vez disso põe uma calça de moletom e um sobretudo e sai pra rua pra achar o cara na carroça. Nem sinal dele. Impelido pela obsessão, já no limite com a inasanidade, Dario simplesmente sai andando a pé na direção que a carroça seguia, dane-se o fato de estar descalço e da chuva ter voltado a cair. Eis que...

(um parênteses para externar um dilema do autor. Deveria a história seguir o curso que escolheu ou não seria mais legal ele deixar a decisão a cargo do leitor? Lembram daqueles livros "escolha sua aventura"? "Se você disser ao vampiro que na carótida tá ok, vá à pagina 23; se por outro lado jogar nele o dente de alho, pule para a 25." Ok, vou fazer isso.)

Opção 1
...depois de meia hora de caminhada, Dario avista a carroça, vazia, sem ninguém. Próximo a ela há uma tenda, que parece ter sido concebida exatamente para aquilo: um círculo de pessoas cantarem ao redor de uma fogueira executando uma dança bizarra, meio tribal, meio qualquer coisa. Tochas iluminam os limites externos da tenda, a luz bruxuleante mostra algumas pessoas nuas, outras vestem indumentárias de sacerdote; o clima místico é quase palpável. O cântico se assemelha a um alcalóide auditivo, se é que isso existe. Uma energia estranha emana daquele ritual no meio do nada, não há casas próximas. Mesmerizado, Dario não se dá conta que um homem aproxima-se atrás dele, desferindo-lhe um golpe na nuca. Dario cai desfalecido.


Ou então: (2)

... alguns metros à frente, lá está a carroça, parada junto ao meio fio. Só que seu dono não é um velho, é um rapaz. Ele fuma algo semelhante a um cigarro de palha. Olha pra Dario se aproximando e passa a se comportar como o típico mineiro capiau: desconfiado, mas sem o menor traço de hostilidade, apenas tímido demais para deixar transparecer a curiosidade sobre aquele maluco descalço que o segue. Pita e fita com rabo de olho. Dario diz boa noite, pede desculpas se o assustou. O cara continua mudo. Diz que está procurando-o há dias, precisa urgente de muita lenha pra abastecer sua lareira naquele frio que cisma em perpetuar. "Pode me vender, vi que a carroça tá cheia?". "Cheia de que?" são as primeiras palavras do capiau. "De lenha, oras" e Dario ri, achando o cara quase tão capiau como um homem das cavernas. "Mas não é lenha qui tem aqui não, moço." E o cara retira a lona que recobre a caçamba da carroça. Dario não se lembra de ter visto lona nenhuma. Mas o que há sob ela deixa-o espepufato, sem reação.
Lá estão o álbum que Dario fez com os colegas de escola quando concluíram a 4ta série primária e há ele achava ter perdido há anos. A camiseta que adorava com a estampa do calendário maia. Seu primeiro canivete suíço, a boina que usava quando criança e nunca mais viu. O caderninho onde anotava poemas para suas musas de adolescência, a prova da segunda etapa do vestibular da ufmg que fez com displicência e não passou. Uma caixa de lata onde seu pai guardava a coleção de moedas antigas, que Dario achava que a madrasta havia roubado. Céus, o livro "Sábado do Vapor", que leu, amou, emprestou e perdeu. Passagens de viagens que não fez, fotos de pessoas que teve vontade de conhecer mas se acovardou e até dele mesmo, bem diferente. Em suma, o cara levava na carroça não só a vida de Dario, mas também todas suas vidas potenciais. Depois de um tempo indefinido, ele senta no meio fio e começa a chorar. Aquilo só podia ser sonho.

Ou então, ou então! (3)
...rapidamente Dario alcança a carroça. Chama pelo carroceiro, que se vira pra ele. É mesmo um garoto. Explica que quer comprar lenha. Tudo bem. "Só não estou com grana aqui, mas minha casa é aqui do lado"... o garoto o interrompe, diz que num carece não, fica pra virar freguês. "Como virar freguês sendo que é quase impossível de te achar?" "Né mais não.", e o garoto lhe estende um cartão de visitas de fino trato, papel de primeira e tudo. Mas a única coisa que está escrita é um número de celular. O menino convida-o a subir na charrete para levá-lo, assim como a lenha que adquiriu. Dario acha o cavalo bonito, pergunta o nome. "Tem nome não". "E você, como se chama?" "Moço, nessa história os nomes não são importantes". Mais um zureta, pensa Dario. E chegam em casa. Num toque final de bizarrice, o menino instrui-o para só queimar a lenha se estiver em paz com ele mesmo. "Porque, tem alguma droga na lenha?" "Se o sinhô quiser chamar minha lenha de droga, pode chamar. Mas já te disse que nomes são supérfluos". Dario convida-o para entrar, está feliz, quer comemorar, mas o menino vai embora sem responder. Ângela assiste a cena de longe. O namorado comenta com ela o quanto o garoto é esquisito. "Mas que garoto? Aquele é um velho. Dario, cê bebeu?" Ele apenas olha pra ela e em seguida em volta. Tem uma sensação bem nítida de deslocamento, strange man in a strange land. Ele quer acender o fogo o quanto antes, ela pondera sobre o aviso do cara. Dario não sabe o que fazer, deita no sofá e fica abraçado com Ângela. Aquilo já não o faz se sentir tão fora do lugar.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Em busca do Velho da Carrocinha de Lenha - Capítulo 2

(Se estiver realmente interessado nesse post, recomendo que leia o capítulo 1, logo abaixo)

"Genial. Tamos procurando tipo um Mestre dos Magos budista, que finalmente saiu da caverna do dragão e descola um troco vendendo lenha. Faz sentido. Mas achei o marketing dele meio ultrapassado." Ângela, ri, talvez menos por achar graça que para demonstrar carinho. Estão voltando do buteco, a noite já caiu. Dario tenta entrar na jogada e pensa: ok, quando menos esperarmos, lá estará o velho da carroça. Então vou passar a agir instintivamente. Por exemplo: no próximo cruzamento, em vez de virar à direita, como sempre faço, é o caminho de casa, vou pra esquerda. Ivan e Ângela, mesmo conhecendo pouco o lugar, sentem que não estão indo pra casa. Dario expõe sua teoria. A namorada, com o bom humor habitual, acha a idéia boa, não se queixa da fumaça de cigarro no carro todo fechado - está chovendo - nem do cd que fica pulando nas ruas esburacadas. Ivan chama Dario de louco, reclama da dor no pescoço e pergunta se não podem, em vez disso, dar um pulo no Epa para ele comprar leite e salsicha pros sobrinhos. Dando conta do ridículo da situação, entrando em ruas sem saídas, aguçando a mente pra "voz do inconsciente", Dario desiste e sugere: "Vamos pegar a estrada, onde o asfalto é mais liso e dá pra ouvir cd".

Seguem na MG-10, sentido Rio Acima. Ivan pergunta se não tem uma música menos barulhenta, é Soundgarden. Pula umas faixas e começa a tocar "I will always love you", do Cure. Ivan diz que a música trás boas memórias e fica cantando a letra toda errada. Ângela e Dario dão risada. Aí Ivan começa a contar uma história de amor com toques surreais. Curiosamente, a azia de Dario passou.

A história fica pra depois. Convidam Ivan pra ver um filme com ele em casa. Não, não quer segurar vela. E vai embora. Inté.

A casa está como uma câmara frigorífica. Dario é acometido por uma angústia instantânea, é um cara complicado. Liga a tv na globonews e a mulher séria com seus óculos faz uma cara de adepta do sadomasoquismo e declara que a frente fria vai permanecer no sudeste por ao menos mais uma semana, ela e seus amigos: deslizamento de barreira, caos nos aeroportos, barracões soterrados, the whole shabang. A obsessão de Dario em aquecer a namorada leva-o a um ato extremo, inédito: "Vou ligar pros velhinhos do Bebê de Rosemary". "Quem?" "Meus vizinhos, um casal de idosos que nunca vejo. Eles têm um quê de sinistro, daí o apelido. E eles têm uma pilha enorme de lenha sequinha, já vi". Que merda, não tinha o telefone deles. Resolve visitá-los com a cara e a coragem. Ensaia um dialogozinho no caminho, inventa agravantes.

Tocou a campainha 3 vezes e já ia desistir quando uma velhinha abriu a porta. "Dona Antonieta, boa noite! A senhora parece ótima, esse xale caiu bem. Desculpe incomodar desse jeito, mas é que..." e assim por diante. Chamou-a pelo nome errado. Olhando aquele rosto na noite chuvosa, Dario poderia jurar que ela e o marido estavam criando o bebê filho do demônio que roubaram da Mia Farrow. Na sua cabeça tocava a musiquinha do filme. Nada de lenha. Velha mesquinha...

Volta pra casa puto e deprimido. A chuva volta com mais força. Os cães fazem festinha e ele os ignora. Vive um daqueles momentos que o superego o coloca no banco dos réus, como promotor, começa a desfiar o rosário de erros, atos egoístas e tudo de ruim que Dario já tinha feito. "Preciso voltar a fazer análise."

"Meritíssimo, na noite de 16 de julho, dia do aniversário do namoro do acusado com sua companheira, o que ele fez? Alguma idéia, membros do júri? Flores, poemas...? Que nada! Não, o réu ignorou-a friamente e ficou vendo tv, e notem, ele via o filme "The Running Man - O Sobrevivente", com o Arnold Shunashunega. Pasmem. Enquanto isso, sua doce namorada estava sozinha na cama". O advogado de defesa protesta. "Overruled", diz o juiz (o julgamento é gringo). Em seguida ele dá a sessão por encerrada naquele dia. À boca pequena diz-se que, devido às acusações anteriores, será difícil o réu escapar da condenação por crime de Não-Viver. Seu advogado tenta tranquilizá-lo: "o promotor só queria pôr lenha na fogueira".

Dario tenta rir de si mesmo, cada idéia, mas não consegue. Sobe, deita-se com Ângela, abraçando-a. Quando está quase dormindo, ela começa a gritar, como num pesadelo. Não consegue acordá-la e sem saber o que fazer, começa a gritar junto. Enfim ela acorda. Ouvem um tropel de cavalo. Ele levanta-se e olha pela janela. Está escuro, mas vê uma figura aparentemente jovem numa carroça carregada de lenha. São duas da manhã.

domingo, 29 de julho de 2007

Em busca do Velho da Carrocinha de Lenha - Capítulo 1

Chuva e frio, o clima mais propício para o imponderável invadir o real e chutar pra escanteio a mesmice e a previsibilidade. Se as circunstâncias fossem outras, Dario estaria serenamente abraçado com Ângela, acalentando o pensamento acima e olhando as gotinhas rolando pelo vidro, imaginando que elas estavam apostando corrida. Se sentiria quente e aconchegado, numa ilha de conforto cercada por água por todos os lados. Mas naquele momento o frio insidioso penetrava pelas frestas da velha casa de madeira, chegando até os ossos. Mais uma presença indesejada, ele pensa, enquanto observa, com indisfarçada irritação, seu amigo Ivanzão refastelado na poltrona, fumando como chaminé e se queixando dos gatos, da comida, do frio etc.

A situação é tão desconfortável, que, sem pensar muito, ele pega o casaco e declara que vai buscar lenha para a lareira. Uma idéia idiota e irracional, é claro que toda madeira que encontrar vai estar encharcada. Ele ignora os apelos dos dois, e como uma criança teimosa dirige-se para fora da casa. Enquanto sobe as escadas para a garagem percebe que Ângela e Ivanzão vêm atrás, o que o faz lembrar que, por piores que as coisas estivessem, ao menos estava bem acompanhado. Mas está azedo demais para permitir que o pensamento mude sua atitude, então continua galgando os degraus rapidamente, sem esperar por eles.

Os três seguem de carro para uma madeireira nas redondezas. Lá, Dario descobre que as únicas madeiras que poderia se apossar estão no pátio descoberto. Fica sob a chuva olhando os pedaços de compensado molhados. Ivanzão quebra o silêncio: "Tem lenha pra vender, desses velhos de carrocinha". Ouvir aquilo o irrita ainda mais. Velhos em charretes carregadas de toras em pleno Século XXI... "Claro, Ivan, como não pensei nisso! Vou aproveitar e perguntar pro velho se ele tem algum gramofone seminovo pra eu escutar meus discos de 45 rotações, além de um espartilho pra Ângela e um penico, assim não preciso sair das cobertas nas madrugadas geladas se quiser ir no banheiro". Naquele estado de espírito, Dario adora destilar seu sarcasmo. Segue-se uma discussão inútil entre os dois, que invariavelmente resvala no secular "então foda-se", "não, foda-se seu", "não, foda-se você", "então vai se fuder" e assim por diante. A namorada apenas assiste, divertida com os dois marmanjos regressando ao segundo ano primário, com uma ponta de exasperação.

O frio não dá brecha para o orgulho de Dario manifestar, então ele dá o braço a torcer e resolve procurar o velho da carrocinha. Vão para a vila, onde reside boa parte das pessoas que trabalham nos condomínios vizinhos. O centro cultural do lugar é o buteco da esquina, ornamentado por pôsteres da Juliana Paes e do Atlético. Ele entra no bar e tenta disfarçar o desconforto causado pelos olhares dos fregueses medindo-o. Sente-se um intruso, no ar um cheiro quase insuportável de carnes cozidas demais em molhos inexplicáveis. Pede uma jurubeba, como que para mostrar que, afinal, não é tão diferente assim deles. Começa a ensaiar um papo despretensioso com o cara do balcão ("tá frio demais, hein...") mas antes de terminar a frase é interrompido por Ivanzão berrando de dentro do carro pra ele comprar uma coca. A raiva de Dario sobe mais um degrau, ele tem a impressão de sentir o fígado liberando secreções de mau humor, ao mesmo tempo que a jurubeba bate no estômago provocando azia instantânea. Com cara de doente terminal, olha pra Ângela no carro. Ela desce e se junta a ele, logo perguntando pro balconista se ele saberia de alguém que tivesse lenha seca pra vender. O cara coça a cabeça e franze a testa, recorrendo a arquivos empoeirados da memória. "Tinha um senhor que vendia sim. Ô seu Eupídio, lembra daquele homem que tinha um carrinho de lenha?" Seu Eupídio está sentado sozinho numa mesa ao fundo bebendo nova schin. Parece incrivelmente velho, usa óculos de aviador, camisa desabotoada e colares dourados no pescoço. Parece nem ter ouvido, mas depois de um tempo pergunta quem queria saber. "Sou eu quem tá querendo, vou congelar se não conseguir acender a lareira... vocês não sentem frio em casa?" e Dario tenta esboçar um sorriso, pedindo cumplicidade. O balconista fala que tem aquecedor elétrico. Alguém comenta que lareira deixa cheiro ruim. Enfim Seu Eupídio responde, olhando pra Ângela: "Às vezes ele aparecia no bar que tinha antes desse aqui. Era meio cego. Tinha um burrinho que ele tratava como filho, chamava de um nome gozado. Naquele ano que o Galo foi campeão brasileiro o burrico morreu no mesmo dia, ele tomou um porre e não sabia se ria pelo galo ou chorava pelo burro. Já tava bem velho, com certeza bateu as botas". Uma mulher entra na conversa: "O velhinho da carroça? Um que não tem um olho? Pois eu vi ele há pouco tempo saindo da mata com um feixe grandão de lenha nas costas. Não parecia tão velho". Dario mexe os dedos, fazendo contas. O Galo ganhou em 70, 71. Estamos em 2007. E fala: "Não pode ser o mesmo cara, ele já era velho há mais de 35 anos!" Ivanzão enfim entra no recinto: "E aí, comédia? Num falei que ainda tem desses caras? Pede uma coca pra mim." Um motoboy fala que é, sim, o mesmo velho, costumava pescar com seu avô e que inclusive acha que viu ele na estrada anteontem, não estava certo pois quando olhou de novo ele não estava mais lá. O balconista exclama: "Então tá explicado, ele é um fantasma" e o bar todo cai na gargalhada.

Dario acha que estão zombando dele e sai sem se despedir nem agradecer. Ângela é quem o faz e ainda tenta conseguir mais informações sobre o velho caolho. Já está dando partida no carro quando Ivanzão berra de dentro do bar: "Dario! Vai dar o cano no cara?". A azia, em franca expansão, chega incendiando o esôfago. Ângela entra no carro: "Seu Eupídio me falou uma coisa tão estranha... disse que quando a gente parasse de procurar ele ia aparecer." (CONTINUA)

terça-feira, 10 de julho de 2007

Quirguistão

Emblema do Quirguistão

O nome significa "País das 40 Tribos". Antiga república da URSS, bem no coração da Ásia. Aliás, é a versão asiática da minha terrinha, Minas, sem mar, com montanhas a perder de vista e totalmente ignorados pelo resto do mundo.

Paisagem "suíça"

De acordo com o guia Lonely Planet, motivos para visitar essa jovem república são escassos. O Quirguistão, como era de se esperar, é esquisito da cabeça aos pés. Não há monumentos históricos, a arquitetura é típica de países ex-comunistas, a comida é ruim, o governo é corrupto, o povo tem costumes bem sui generis, como se verá adiante. Por outro lado, o país é conhecido como a "Suíça da Ásia Central" pela beleza das paisagens e é relativamente seguro. O guia afirma ser um dos lugares mais acessíveis da região.

Jovens aristocratas em seu joguinho de ulak dominical

O povo é tido como alegre, hospitaleiro, gosta de desobedecer as autoridades e beber leite fermentado de égua (não é brincadeira). O esporte nacional é o ulak, uma espécie de rugby jogado sobre cavalos em que a bola é uma carcaça de um filhote de bode. Começa o freak show.

A versão quirguiz do Charlie Brown Jr: sopra-se o chifre para anunciar cerimônia de casamento

Outra tradição do arco da velha é o sequestro de noivas. Costume remanescente das tribos nômades que são os antepassados dos quirguizes, mesmo no século XXI ainda é muito praticado, só que em vez de cavalos usam carros para raptar a moça. É tudo muito simples: escolha a noiva, chame uns amigos ou mesmo seus pais, vá atrás dela e coloque-a no carro, a vontade dela é o que menos importa. Leve-a para casa, onde suas tias vão tentar convencê-la que no fundo você é um bom partido. Se não funcionar, problema dela. Violência sexual é outra forma de persuadi-la. As poucas noivas raptadas que conseguem se livrar do jugo do noivo wannabe passam a carregar um terrível estigma social. Algumas se matam.

Mulher viaja de trem

Enquanto era uma república soviética, os russos bem que tentaram erradicar esse hábito escatológico, sem sucesso. Embora proibido por lei, são raríssimos os casos em que os sequestradores recebem alguma punição. O sequestro de noivas também é praticado, em variações ainda mais violentas na Etiópia e em Ruanda, além dos países vizinhos do Quirguistão.

Queria escrever um post bestinha, metido a inusitado, e me deparo com mais uma aberração desse bicho esquisito que é o homem. Até quando grupos de algum gênero, credo ou raça em desvantagem num determinado contexto continuarão a ser tratados como criaturas inferiores? Toda a história nos mostra que abuso e discriminação são lesivos tanto para quem o pratica quanto para aquele que sofre. Mas em nome da "cultura" as pessoas prosseguem cometendo os mesmos erros, estupidamente coerentes com sua estupidez.


sábado, 7 de julho de 2007

Aqui jaz o futebol


Vocês devem ter visto em algum órgão da imprensa. Na última quinta, 5 de julho, completaram-se exatos 25 anos da derrota do Brasil para Paolo Rossi na Copa de 82 na Espanha. Não gosto de ser melodramático, mas aquele jogo constituiu meu primeiro trauma. Eu tinha 7 anos, e como todo brasileiro, acreditava que nossa seleção era imbatível. O mundo nos endeusava, talvez tanto quanto o escrete formado por Pelé, Rivelino, Tostão e outros na conquista de nosso tricampeonato em 70. O Brasil vinha de duas Copas onde sua reputação tinha sido arranhada. Telê Santana, mineiro romântico e idealista, reuniu um punhado de jogadores quase perfeitos, o fato de tantos atletas habilidosos estarem no auge da forma ao mesmo tempo era uma coincidência tão feliz que tinha algo de sobrenatural. A seleção de Zico, Éder, Sócrates, Falcão, Cerezo etc era mais que um time excelente. Eles eram mensageiros da alegria, da beleza, da espontaneidade, da coragem e, sobretudo, do respeito ao futebol e às torcidas. Aquilo era futebol. O que se vê hoje não merece a palavra futebol. No espaço de 90 minutos as centenas de milhões de torcedores substituíram o encanto pela desilusão. Naquele dia a Terra chorou.

O último suspiro do futebol-arte. As táticas professadas por Telê soavam como bossa nova, de tão lindas, um modelo de como o esporte deveria ser praticado. Ofensividade, toque de bola, jogos limpos, com poucas faltas. Marcação e defesa estavam relegados ao segundo plano. Achava-se que o ataque all star iria compensar possíveis falhas nesses setores. Ledo engano: a Itália, até então um azarão com uma campanha pífia, (3 empates na primeira fase, apenas 2 gols pró) encontrou o calcanhar de Aquiles do time brasileiro e soube tirar proveito disso. Defendo a tese de que não fomos derrotados pela Itália e sim pela soberba e excesso de auto-confiança. Enquanto nossos oponentes mudaram totalmente seu esquema de jogo, com marcação homem a homem e explorando contra-ataques, o Brasil manteve-se fiel ao estilo "jogue e deixe jogar". Os italianos não nos deixaram jogar, mas nós permitimos que eles jogassem. Assim se fez a tragédia do Sarriá, o dia em que descobrimos que o sonho nunca mais iria se materializar.

Essa partida mudou definitivamente a forma como o futebol é encarado. O Brasil parecia preocupar-se antes de tudo em oferecer um belo espetáculo, e nesse quesito mostrou-se impecável. Assisti um programa de tv sobre a catástrofe e quando mostraram nossos gols contra Escócia e Nova Zelândia me surpreendi com os olhos cheios d´água. Sério. Um balé mágico, poesia em movimento, a leveza com que tocavam a bola, sua intimidade e carinho com ela... as vitórias acachapantes - 4 a 1 e 4 a 0 - eram consequências naturais. Assistir esses jogos é como alimentar a alma.

Uma coisa me chamou a atenção: enquanto em 82 queríamos que a Copa não acabasse nunca, pois cada partida do Brasil era uma experiência que tocava nossas almas; em 94 o Zagallo falava no final de cada jogo: "agora só são 3" e depois "só faltam 2". O espetáculo dá lugar a uma feiúra eficiente. Se vencêssemos aquela Copa, todo o resto, e eu digo tudo mesmo, faria mais sentido. Exagero? Com certeza, mas paixões são, a rigor, exageradas e pouco racionais. Quando esbarramos nuns retranqueiros que caçavam nossos artistas como turistas branquelos perseguem felinos na savana, vimos o pragmatismo triunfar sobre o improviso, o carrinho preponderar sobre o drible, o pagode mauricinho bater o samba de raiz, Jim Carrey vencer Jerry Lewis e assim por diante. Logo, o mundo inteiro abriu mão de táticas ofensivas, afinal o objetivo é vencer e não entreter o espectador. So long, futebol-arte. Hello, mediocridade.

Num plano pessoal, a queda da melhor seleção da Copa foi a primeira lição que tive sobre o mundo não ser exatamente próspero, doce, justo e harmônico. Injustiças acontecem o tempo todo, trabalho duro não é bem recompensado, às vezes a falta de escrúpulos parece ser um comportamento mais adequado numa sociedade extremamente materialista, a violência é o modo mais rápido e eficaz de resolver conflitos, as pessoas gostam mesmo é de ver sexo e sangue, o diabo pode falar mais alto que Deus. Mesmo assim, vale a pena cultivar valores e virtudes esquecidos, ser fiel a si mesmo, acreditar que todas as criaturas estão conectadas e pertencem a algo que é maior que a soma de suas partes.

Há muitos anos vi um curta metragem do Jorge Furtado (de O Homem que Copiava e Meu Tio matou um Cara) chamado Barbosa. Esse é o nome do goleiro da seleção brasileira na Copa de 50. Como todos sabem, perdemos a final para o Uruguai num Maracanã lotado que ficou em estado de choque. No filminho um homem volta no tempo para impedir que Barbosa tome o segundo gol do Uruguai, o gol com que sagrou-se campeão. Quero uma máquina do tempo para me transportar 25 anos atrás, interferir no jogo e mudar a história da partida de futebol mais emblemática de todos os tempos.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Viagem

Em algum lugar do universo as naves espaciais são movidas a ondas sonoras. Seu combustível é a música. Isso explica o comportamento arredio dos ovnis que nos visitam. Só querem rock´n roll all night. Captando ondas radiofônicas, acompanharam a era das big bands, o twist, experimentaram um boost de potência com sumidades como Little Richard, Jerry Lee Lewis e Chuck Berry e graças à Santíssima Trindade do hard rock, expandiram suas fronteiras para limites inimagináveis. Ultimamente têm se mostrado decepcionados com os rumos que a música pop tomou, a mediocridade tomando cada vez mais espaço no dial. E voltam-se para décadas passadas, quando o ímpeto de chegar até onde nenhum ser humano jamais esteve - melhor dizendo "to go boldly where no man has gone before" - traduzia-se em canções que não ofereciam limites para a imaginação.

Cruzadores transgaláticos atravessam o éter turbinados pelo primeiro disco do Rush. Caças translúcidos desviam freneticamente de sucessivos obstáculos de um cinturão de asteróides numa velocidade insana, graças aos acordes de Sabbra Cadabra, do Sabbath. Gigantescos couraçados adentram a atmosfera de Rigel sob a histeria de 21st Century Schizoid Man, do King Crimson. Tales of Brave Ulisses, do Cream, impulsiona a intrépida esquadra rebelde contra o QG do tirano que oprime seu povo. E Time permite que a sonda de pesquisas seja tragada por um buraco negro onde do outro lado pode-se ouvir softly spoken magic spells num great gig in the sky. Aí chegaram uns caras que me afastaram do pc e me colocaram numa camisa-de força.

Elas também podem, metaforicamente, nos transportar. Eu, por exemplo, entro em órbita quando escuto Cross-Eyed Mary do Jethro Tull, Whiter Shade of Pale, do Procol Harum, Nights in White Satin, do Moody Blues, Season of the Witch, do Donovan (nesse caso, uma órbita muito feliz, harmônica, intimamente binária), Eleanor Rigby (de preferência com o Ray Charles) e Mestre Jonas (Sá, Rodrix & Guarabira), entre muitas e muitas outras.