sábado, 7 de julho de 2007

Aqui jaz o futebol


Vocês devem ter visto em algum órgão da imprensa. Na última quinta, 5 de julho, completaram-se exatos 25 anos da derrota do Brasil para Paolo Rossi na Copa de 82 na Espanha. Não gosto de ser melodramático, mas aquele jogo constituiu meu primeiro trauma. Eu tinha 7 anos, e como todo brasileiro, acreditava que nossa seleção era imbatível. O mundo nos endeusava, talvez tanto quanto o escrete formado por Pelé, Rivelino, Tostão e outros na conquista de nosso tricampeonato em 70. O Brasil vinha de duas Copas onde sua reputação tinha sido arranhada. Telê Santana, mineiro romântico e idealista, reuniu um punhado de jogadores quase perfeitos, o fato de tantos atletas habilidosos estarem no auge da forma ao mesmo tempo era uma coincidência tão feliz que tinha algo de sobrenatural. A seleção de Zico, Éder, Sócrates, Falcão, Cerezo etc era mais que um time excelente. Eles eram mensageiros da alegria, da beleza, da espontaneidade, da coragem e, sobretudo, do respeito ao futebol e às torcidas. Aquilo era futebol. O que se vê hoje não merece a palavra futebol. No espaço de 90 minutos as centenas de milhões de torcedores substituíram o encanto pela desilusão. Naquele dia a Terra chorou.

O último suspiro do futebol-arte. As táticas professadas por Telê soavam como bossa nova, de tão lindas, um modelo de como o esporte deveria ser praticado. Ofensividade, toque de bola, jogos limpos, com poucas faltas. Marcação e defesa estavam relegados ao segundo plano. Achava-se que o ataque all star iria compensar possíveis falhas nesses setores. Ledo engano: a Itália, até então um azarão com uma campanha pífia, (3 empates na primeira fase, apenas 2 gols pró) encontrou o calcanhar de Aquiles do time brasileiro e soube tirar proveito disso. Defendo a tese de que não fomos derrotados pela Itália e sim pela soberba e excesso de auto-confiança. Enquanto nossos oponentes mudaram totalmente seu esquema de jogo, com marcação homem a homem e explorando contra-ataques, o Brasil manteve-se fiel ao estilo "jogue e deixe jogar". Os italianos não nos deixaram jogar, mas nós permitimos que eles jogassem. Assim se fez a tragédia do Sarriá, o dia em que descobrimos que o sonho nunca mais iria se materializar.

Essa partida mudou definitivamente a forma como o futebol é encarado. O Brasil parecia preocupar-se antes de tudo em oferecer um belo espetáculo, e nesse quesito mostrou-se impecável. Assisti um programa de tv sobre a catástrofe e quando mostraram nossos gols contra Escócia e Nova Zelândia me surpreendi com os olhos cheios d´água. Sério. Um balé mágico, poesia em movimento, a leveza com que tocavam a bola, sua intimidade e carinho com ela... as vitórias acachapantes - 4 a 1 e 4 a 0 - eram consequências naturais. Assistir esses jogos é como alimentar a alma.

Uma coisa me chamou a atenção: enquanto em 82 queríamos que a Copa não acabasse nunca, pois cada partida do Brasil era uma experiência que tocava nossas almas; em 94 o Zagallo falava no final de cada jogo: "agora só são 3" e depois "só faltam 2". O espetáculo dá lugar a uma feiúra eficiente. Se vencêssemos aquela Copa, todo o resto, e eu digo tudo mesmo, faria mais sentido. Exagero? Com certeza, mas paixões são, a rigor, exageradas e pouco racionais. Quando esbarramos nuns retranqueiros que caçavam nossos artistas como turistas branquelos perseguem felinos na savana, vimos o pragmatismo triunfar sobre o improviso, o carrinho preponderar sobre o drible, o pagode mauricinho bater o samba de raiz, Jim Carrey vencer Jerry Lewis e assim por diante. Logo, o mundo inteiro abriu mão de táticas ofensivas, afinal o objetivo é vencer e não entreter o espectador. So long, futebol-arte. Hello, mediocridade.

Num plano pessoal, a queda da melhor seleção da Copa foi a primeira lição que tive sobre o mundo não ser exatamente próspero, doce, justo e harmônico. Injustiças acontecem o tempo todo, trabalho duro não é bem recompensado, às vezes a falta de escrúpulos parece ser um comportamento mais adequado numa sociedade extremamente materialista, a violência é o modo mais rápido e eficaz de resolver conflitos, as pessoas gostam mesmo é de ver sexo e sangue, o diabo pode falar mais alto que Deus. Mesmo assim, vale a pena cultivar valores e virtudes esquecidos, ser fiel a si mesmo, acreditar que todas as criaturas estão conectadas e pertencem a algo que é maior que a soma de suas partes.

Há muitos anos vi um curta metragem do Jorge Furtado (de O Homem que Copiava e Meu Tio matou um Cara) chamado Barbosa. Esse é o nome do goleiro da seleção brasileira na Copa de 50. Como todos sabem, perdemos a final para o Uruguai num Maracanã lotado que ficou em estado de choque. No filminho um homem volta no tempo para impedir que Barbosa tome o segundo gol do Uruguai, o gol com que sagrou-se campeão. Quero uma máquina do tempo para me transportar 25 anos atrás, interferir no jogo e mudar a história da partida de futebol mais emblemática de todos os tempos.

4 comentários:

Anônimo disse...

muito bem escrito. Parabéns. Acho que vi esse filme do Barbosa. O homem que volta no tempo é encarnado pelo Antônio Fagundes, eu acho. Futebol e principalmente a Fórmula 1 perderam muito a graça para mim, nos últimos tempos. Este último nem considero mais como esporte, por causa da morte do Senna e de tantas outras que ocorreram antes, além é claro do fato de se tratar de uma competição muito mais de máquinas do que de gente e, é evidente, pela quase inexistência, hoje em dia, de ultrapassagens, pegas e outras coisas emocionantes que havia antes. Ficou tudo muito entediante. Também o futebol, que só consegue me entreter numa ou noutra jogada, 99,99% do tempo é tudo muito chato. Continuo a preferir o basquete, quando profissional e de alto nível.

Lidiane disse...

Rindo aqui.
Homens...

Quando eu era pequena, não entendia porque o meu pai não gostava de futebol como os pais das minhas coleguinhas. Achava estranho.
Quando cresci, ele me contou, meio em segredo, que era por um trauma.
Meu velho assistiu à final (desastrosa) entre o Brasil e o Uruguai na copa do mundo. Aquela em que o Brasil perdeu. E perdeu no Brasil.
Diz ele que chorava tanto e tanto que jurou nunca mais pisar em um estádio e não ligar mais pra futebol.
Cumpriu a promessa.

Tava aqui pensando. Isso dá um livro bacana: "Os homens e seus traumas".
Quer ser entrevistado?

Agora no Pan você se recupera, viu?
Que tal ver tooooooooooooodas as modalidades pela tv? :P

Beijo, lôro.
Em você, nos dogs e nos gatitos.

Let disse...

Oi!! Belo texto!!
Interessante como o futebol influencia nós, brasileiros. Eu gostava de ver todos os jogos da seleção, mas fiquei muito triste quando perdemos a última copa justamente por isso que você citou. Acho que tínhamos jogadores bons, mas excesso de auto-confiança. Pensei muito sobre isso quando a copa acabou e desde então, parei de ver os jogos da seleção. Pensei que eles estavam lá, ganhando um bom dinheiro e desfrutavam de uma boa posição pois estavam no holofote da mídia mundial e parece que não ligavam, ou, na verdade, só queriam isso: aparecer. Muitos garotinhos de favela gostariam de estar lá.

Voltei a ver os jogos na partida contra o Chile. Meu pai me ligou e disse "veja dessa vez". Acho que vou ter problemas emocionais brevemente....

quevedo® disse...

no curta, Barbosa toma o gol do mesmo jeito...