quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Em busca do Velho da Carrocinha de Lenha - Capítulo 3

(Ok, interrompemos a narrativa no momento em que Dario avista pela janela do quarto o tão procurado velho com a carroça cheia de lenha sequinha. É madrugada.)

Dario diz que vai na cozinha comer algo, em vez disso põe uma calça de moletom e um sobretudo e sai pra rua pra achar o cara na carroça. Nem sinal dele. Impelido pela obsessão, já no limite com a inasanidade, Dario simplesmente sai andando a pé na direção que a carroça seguia, dane-se o fato de estar descalço e da chuva ter voltado a cair. Eis que...

(um parênteses para externar um dilema do autor. Deveria a história seguir o curso que escolheu ou não seria mais legal ele deixar a decisão a cargo do leitor? Lembram daqueles livros "escolha sua aventura"? "Se você disser ao vampiro que na carótida tá ok, vá à pagina 23; se por outro lado jogar nele o dente de alho, pule para a 25." Ok, vou fazer isso.)

Opção 1
...depois de meia hora de caminhada, Dario avista a carroça, vazia, sem ninguém. Próximo a ela há uma tenda, que parece ter sido concebida exatamente para aquilo: um círculo de pessoas cantarem ao redor de uma fogueira executando uma dança bizarra, meio tribal, meio qualquer coisa. Tochas iluminam os limites externos da tenda, a luz bruxuleante mostra algumas pessoas nuas, outras vestem indumentárias de sacerdote; o clima místico é quase palpável. O cântico se assemelha a um alcalóide auditivo, se é que isso existe. Uma energia estranha emana daquele ritual no meio do nada, não há casas próximas. Mesmerizado, Dario não se dá conta que um homem aproxima-se atrás dele, desferindo-lhe um golpe na nuca. Dario cai desfalecido.


Ou então: (2)

... alguns metros à frente, lá está a carroça, parada junto ao meio fio. Só que seu dono não é um velho, é um rapaz. Ele fuma algo semelhante a um cigarro de palha. Olha pra Dario se aproximando e passa a se comportar como o típico mineiro capiau: desconfiado, mas sem o menor traço de hostilidade, apenas tímido demais para deixar transparecer a curiosidade sobre aquele maluco descalço que o segue. Pita e fita com rabo de olho. Dario diz boa noite, pede desculpas se o assustou. O cara continua mudo. Diz que está procurando-o há dias, precisa urgente de muita lenha pra abastecer sua lareira naquele frio que cisma em perpetuar. "Pode me vender, vi que a carroça tá cheia?". "Cheia de que?" são as primeiras palavras do capiau. "De lenha, oras" e Dario ri, achando o cara quase tão capiau como um homem das cavernas. "Mas não é lenha qui tem aqui não, moço." E o cara retira a lona que recobre a caçamba da carroça. Dario não se lembra de ter visto lona nenhuma. Mas o que há sob ela deixa-o espepufato, sem reação.
Lá estão o álbum que Dario fez com os colegas de escola quando concluíram a 4ta série primária e há ele achava ter perdido há anos. A camiseta que adorava com a estampa do calendário maia. Seu primeiro canivete suíço, a boina que usava quando criança e nunca mais viu. O caderninho onde anotava poemas para suas musas de adolescência, a prova da segunda etapa do vestibular da ufmg que fez com displicência e não passou. Uma caixa de lata onde seu pai guardava a coleção de moedas antigas, que Dario achava que a madrasta havia roubado. Céus, o livro "Sábado do Vapor", que leu, amou, emprestou e perdeu. Passagens de viagens que não fez, fotos de pessoas que teve vontade de conhecer mas se acovardou e até dele mesmo, bem diferente. Em suma, o cara levava na carroça não só a vida de Dario, mas também todas suas vidas potenciais. Depois de um tempo indefinido, ele senta no meio fio e começa a chorar. Aquilo só podia ser sonho.

Ou então, ou então! (3)
...rapidamente Dario alcança a carroça. Chama pelo carroceiro, que se vira pra ele. É mesmo um garoto. Explica que quer comprar lenha. Tudo bem. "Só não estou com grana aqui, mas minha casa é aqui do lado"... o garoto o interrompe, diz que num carece não, fica pra virar freguês. "Como virar freguês sendo que é quase impossível de te achar?" "Né mais não.", e o garoto lhe estende um cartão de visitas de fino trato, papel de primeira e tudo. Mas a única coisa que está escrita é um número de celular. O menino convida-o a subir na charrete para levá-lo, assim como a lenha que adquiriu. Dario acha o cavalo bonito, pergunta o nome. "Tem nome não". "E você, como se chama?" "Moço, nessa história os nomes não são importantes". Mais um zureta, pensa Dario. E chegam em casa. Num toque final de bizarrice, o menino instrui-o para só queimar a lenha se estiver em paz com ele mesmo. "Porque, tem alguma droga na lenha?" "Se o sinhô quiser chamar minha lenha de droga, pode chamar. Mas já te disse que nomes são supérfluos". Dario convida-o para entrar, está feliz, quer comemorar, mas o menino vai embora sem responder. Ângela assiste a cena de longe. O namorado comenta com ela o quanto o garoto é esquisito. "Mas que garoto? Aquele é um velho. Dario, cê bebeu?" Ele apenas olha pra ela e em seguida em volta. Tem uma sensação bem nítida de deslocamento, strange man in a strange land. Ele quer acender o fogo o quanto antes, ela pondera sobre o aviso do cara. Dario não sabe o que fazer, deita no sofá e fica abraçado com Ângela. Aquilo já não o faz se sentir tão fora do lugar.

Um comentário:

Lidiane disse...

Pois é.
Você me surpreendeu de novo.
Três enredos!
Adorava esses livros quando era novinha (se bobear, gosto até hoje). Ficava feito uma tonta, lendo todos os finais...

Opção 1
O clima da história me lembrou Robin Hood.
Gostei do suspense. Mas acho que ficou meio deslocado no tempo e no espaço, em relação às partes I e II.

Opção 2
Essa é, sem dúvida, a opção que mais se parece com você.
O álbum, a camiseta, o canivete s.u.i.ç.o, e... o caderno de anotações (!!!).
Gostei muito. Vi você em cada pedacinho.

Opção 3
Essa é a mais parecida comigo.
"Nomes não são importantes"
"Queimar a lenha quando estiver em paz"
"Dario, cê bebeu?"
E, confesso, adorei o final da opção 3.
Aconchego sempre é *muito* bom.

Esperando a continuação.

Beijo.