quinta-feira, 10 de maio de 2007

Razões para a Guerra

Blowback: termo usado para descrever as consequências negativas resultantes de operações da CIA, geralmente em países cujas relações com os EUA estão estremecidas. Obviamente, blowbacks são sempre mantidos em segredo a qualquer custo para não desgastar a imagem do governo norte-americano. Dessa forma, quando governos ou organizações que foram objeto desses ataques dissimulados se vingam, atacando alvos ianques, a opinião pública americana sente-se injustamente perseguida, perguntando-se porque seu país é tão odiado.
Exemplo: os ataques de 11 de setembro.

Acabei de assistir um documentário sensacional, Razões para a Guerra (Why we Fight). Não trás nenhuma informação bombástica que já não sabíamos previamente, à primeira vista é apenas mais uma voz do coro mundial contra Bush. No entanto, a forma como articula diversos fatos sobre a indústria bélica norte-americana e sua relação com o Estado fornece uma explicação definitiva sobre os motivos que levaram os EUA a se auto-proclamarem o Império Romano dos nossos dias.

O documentário chama a atenção para uma anomalia que passou despercebida na cobertura da mídia sobre o ataque às torres gêmeas. O ódio e a indignação eram tamanhos que ninguém investigou a fundo sobre os verdadeiros motivos que levaram os radicais islâmicos a perpetrarem atentados tão bárbaros. A mídia, afinada com o governo, tratou de simplificar ao máximo a questão: atacaram porque são bárbaros primitivos inimigos da liberdade e democracia. Então tá. Os americanos engoliram essa retórica maniqueísta do jeitinho que Bush queria. Amedrontados, tornaram-se facilmente manipuláveis. O mesmo discurso foi usado para justificar a guerra no Iraque, depois que descobriu-se que Bush sempre soube que Saddam não tinha armas de destruição em massa. Se Saddam era tão nocivo à ordem mundial, como se explica o apoio que recebeu dos EUA na guerra contra o Irã de Khomeini? Se Bin Laden era aquele monstro que pintaram, que diabos os americanos faziam ajudando-o na guerra do Afeganistão?

Uma das "verdades" inquestionáveis sobre a participação dos EUA na Segunda Guerra é que se o Presidente Truman não tivesse jogado as bombas atômicas, o combate se estenderia por muito mais tempo e centenas de milhares de soldados americanos morreriam até o Japão se render. Será que a rendição estava tão distante assim, mesmo com seus parceiros do Eixo já tendo capitulado? Hoje há indícios que levam a crer que as bombas foram usadas como uma espécie de recado para o mundo inteiro, sobretudo para a URSS de Stálin: há uma nova liderança mundial indiscutível, os EUA.

O fato é que guerras podem ser extremamente lucrativas e a demanda maciça por artefatos bélicos durante a guerra tinha que continuar nas décadas seguintes. Criou-se um círculo vicioso: o complexo industrial militar cresceu de forma assustadora, de modo que tornou-se um grande financiador de campanhas políticas para manter seu status. E os políticos perceberam que se encontrassem formas de manter a demanda por armamentos em ascensão todos sairiam ganhando (todos os americanos, somente eles, é claro). A economia se manteria aquecida, trazendo prosperidade para a população, os políticos teriam recursos enormes para suas campanhas e o tal complexo ganharia tamanha importância que, se sua produção caísse, toda a economia do país sentiria o impacto.

Assim, a guerra fria caiu como uma luva nesse contexto. A desculpa era zelar pela democracia e liberdade lutando contra a ameaça comunista onde quer que ela existisse. Os motivos reais eram inventar razões para o gigantismo das forças armadas e criar e manter mercados para alimentar o sistema capitalista. Mas o comunismo entrou em colapso, era preciso encontrar novos inimigos.

A guerra no Iraque não é um evento isolado: em todos os governos americanos, sobretudo no pós-guerra, houve intervenções militares em outros países. Apenas um dia depois do 9/11, a cúpula de Bush já estudava a invasão do Iraque a fim de assegurar o fornecimento de petróleo a baixos custos. Ironicamente, os EUA se tornaram reféns das forças que supostamente deveriam defendê-los. O orçamento para a defesa é maior que todas as outras áreas somadas. Só para ilustrar: o dinheiro empregado para construir apenas um destróier é suficiente para criar moradias para 8.000 pessoas. Com um preço de um avião bombardeiro pode-se construir 30 escolas. O vice de Bush, Dick Cheney sempre esteve ligado a uma megacorporação que inclui a manufatura de produtos bélicos, a Halliburton. Aliás, o patrimônio de Cheney era de US$ 1 milhão quando ganhou as eleições. Em 5 anos passou para US$ 60 milhões.

Usando uma metáfora bem desgastada, mas nem por isso irreal, os EUA são o Dr. Frankenstein e o complexo industrial militar a criatura que ficou forte demais e fugiu do seu controle. Hoje em dia as guerras são um fim em si mesmas. Difícil imaginar algo tão perversamente insano.

2 comentários:

Lidiane disse...

Guerras, política e poder sempre estiveram de braços dados.
Disso não temos dúvidas.
Quanto a mim, penso que há muito mais sob os tapetes do que qualquer documentário possa trazer à tona.
O que é uma lástima, porque a verdade deveria ser clara a todos.
Isso é utopia pura. De fato é.

Gosto do jeito jornalístico como escreve.
E falo muito sério.
Acho que já disse isso, né?

Beijo.

wladia disse...

Interessante sua visão sobre a guerra como um fim em si mesma. Demostra um capacidade de discernimento aguçada.

Bruno mais que nunca Maquievel é um pensamento vivo, e a arte da guerra nos permite uma constante reeleitura histórica. Como o ser humano é manipulavél,como somos joguetes nas mãos dos poderosos.

Seria interressantepoder mapear as maiores corporações ligadas a industria bélica no Grupo dos 9(G9), identificando os executivos que estão por trás delas. É um execelente exercícios topa uma hora fazermos este mapa e em paralelo estudarmos e idetficarmos os maiores Estrátegistas de Guerra da história da humanidade. Assim construindo um mapa geo-histórico atual. Tenho um livro que tem na capa "CAPACETE DE AQUILES" é a história das raízes do terrorismo, contada por um americano especilista em relações exteriores. Esse livro é bem interessante. Vc gostaria de ler? Se quiser me fale.