sábado, 10 de fevereiro de 2007

Vai uma pílula vermelha?


Comecei a ler um livro com ensaios sobre Matrix. Leio, grifo e fico emocionado. Acredito na expansão da consciência. Uma aula, uma conversa, uma crise, um riso, um choro, uma música, um filme, uma palavra, uma pessoa. A teia se expande, se ramifica, ganha complexidade. Sua consciência pode ser representada pelo mapa do quarteirão onde mora, ou da sua cidade, ou do seu país. Quanto mais alto o ponto de vista mais elementos ele vai abarcar. O filme A Última Profecia fala mais ou menos isso. Indrid Cold é uma criatura alada que surge nas vésperas de uma tragédia para alertar as pessoas. Ele vê o futuro porque enxerga as coisas de uma altura que não conseguimos atingir. E vê que está tudo conectado. Assim como Neo, o protagonista de Matrix, que passa a enxergar o simulacro de realidade depois de ser ressuscitado por um beijo. De certa forma ele age como um hacker que consegue penetrar em um site proibido, invertendo sua condição submissa às máquinas, dominando-as.

A questão fundamental que o filme propõe é: você tem uma escolha. Ou você aceita o papel de escravo da máquina ou se reinventa como seu amo. Matrix é uma metáfora da visão de mundo judaico-cristã, um mundo que deu errado, tornou-se uma prisão onde não há chance de redenção a não ser por um milagre. A mais desumana das distopias. Já devo ter falado isso antes, mas vale repetir: a Humanidade é o Dr. Frankenstein, a tecnologia é o monstro que criou mas não pode controlar, e que acaba apossando-se de seu criador. Construímos nossa própria cela e inventamos "realidades" fictícias para não nos confrontarmos com nossa condição de cativos. Ou você acha que a informação que recebe através dos meios de comunicação de massa não é uma versão da matrix?

Matrix é também uma parábola bíblica. O protagonista, Neo (Keanu Reeves) é aquele que veio predestinado para salvar a Humanidade, exatamente como Jesus Cristo. Não é por acaso que sua parceira chama-se Trinity (Carrie-Anne Moss), uma alusão à Santíssima Trindade. E Morpheus (Laurence Fishburne) revela seu papel de João Batista quando diz a Neo: "Talvez você esteja procurando por mim há alguns anos, mas eu tenho te buscado a vida inteira". Para cumprir sua missão, Neo tem que renascer e então pergunta a Morpheus porque seus olhos doem. "Por que você nunca os usou". Ou como diria William Blake: "Se as portas da percepção fossem limpas, tudo apareceria para o Homem como é, infinito". A visão da realidade é devastadora, as pessoas em estado vegetativo são instrumentalizadas, viram gado das máquinas. No entanto, que importância isso tem se um confortável e apaziguador mundo virtual foi criado? Cypher (Joe Pantoliano) é o Judas do filme, o traidor. Quando se encontra com os agentes inimigos em um restaurante, come um belo steak, outro símbolo que não está ali por acaso. O teórico da comunicação Marshall McLuhan usou a carne como metáfora da enganosa diferença entre forma e conteúdo: "o conteúdo de um veículo é como um apetitoso pedaço de carne que o ladrão joga para distrair o cão de guarda da mente". Há quem assista Matrix e enxergue apenas cenas de luta e efeitos especiais, nunca percebendo o real significado do filme.

No início, Neo ainda é Thomas Anderson, um programador atormentado por uma farpa na mente, a certeza de que algo está tremendamente errado, mas não sabe o quê. O filme insinua que cada indivíduo tem a oportunidade de escolher entre a pílula azul e a vermelha. Podemos aceitar a realidade da forma como ela é, acatar as regras do jogo sem questionamentos, mesmo que essa realidade seja desumana e injusta. Ou podemos optar pela pílula vermelha e não aceitar que sejamos definidos por um agente externo, não permitir que o Estado, a religião, as convenções sociais controlem nosso livre-arbítrio, que na verdade só existe em teoria. A pílula vermelha incita perguntas como:
- Temos tecnologia ou é ela que nos tem?
- Computadores podem se tornar mais inteligentes que nós e nos transformar em uma espécie de animal de estimação?
- E se a tecnologia da procriação fosse aperfeiçoada até fazer com que o sexo e a maternidade tornarem-se dispensáveis?
- Estamos de fato marchando rumo à auto-destruição ao colocarmos a tecnologia em um pedestal, como se fosse uma deusa?
- E se a tecnologia de comunicação evoluísse a ponto de a informação ser transmitida diretamente ao cérebro, sem passar pelos sentidos? E se esse fluxo de informação fosse dominado por um agente externo? Isso não corresponderia à televisão?

A mensagem de Matrix é que já vivemos em uma sociedade na qual a vida acontece sem que possamos influenciá-la, à nossa revelia. Contudo, não há nada que possamos fazer para recuperar esse controle? Decidimos inconscientemente delegar tarefas demais à inteligência artificial a ponto de sermos dominados por ela? O filme é como um alarme que nos desperta para questionar dogmas, leis, restrições. Para aqueles que sentem a farpa na mente o desafio é abrir os olhos e procurar a verdadeira realidade, e, afinal, escapar da matrix.

3 comentários:

Lidiane disse...

Acho que já falei isso antes, ainda assim, lá vou eu de novo...

O roteiro desse filme é absolutamente fantástico. Mas Keanu Reeves consegue estragar *qualquer* história. :P

Sinceramente, também não acho o filme, em si grande coisa. Não gostei da direção, alguns efeitos são exagerados e desnecessários, etc, etc e blá blá blá. Mas não me canso de dizer que o roteiro é genial.
Será que eu assisti em um momento errado? Vai ver é melhor eu me render e assistir novamente.
Quer ver comigo? ;)

Agora o livro, putz!
Duas indicações em menos de uma semana é demais, né?
Vou *ter* de ler.

Falar nisso, já viu O Perfume?
Esqueci completamente de perguntar... :/

Um montão de beijos e amassos nos gatos e nos cachorritos.
E claro, um beijinho pra você.

Lidiane disse...

Em tempo, aceito a vermelha.
;)

Let disse...

adorei o post!!!

**Sobre a tecnologia evoluir a tal ponto de não passar pelos sentidos ao nos contaminar, não acho que seria a TV, pois o que seria dela sem a emoção e sensacionalismo?

**Não acho q iremos recuperar o controle nunca e nem gosto de pensar que penso assim...rs

**Claro que é a tecnologia que nos têm. Assim como o $ manda na gente. Queria agora ir para uma floresta bem longe de tudo e de todos. Vou vender minhas coisas por um bom preço, quer?