terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Cada um por si e Deus contra todos


Minha admiração com o poder do dinheiro de corromper as pessoas só faz crescer. Desalentador constatar que seja cada vez mais uma pré condição para nos educarmos, nos divertirmos etc. E que o clichê "cada um tem seu preço" seja verdadeiro. Se bem que ainda tenho esperanças que a internet ajude a reverter essa tendência, apesar de o acesso a ela também representar uma barreira monetária para a maioria esmagadora dos brasileiros. Além disso, uma mudança dessa magnitude não ocorreria apenas com a web, é algo profundo, ecos da escravidão e do mercantilismo. Somente um em cada dez cidadãos de países de terceiro mundo tem acesso a ela.

Assisti o filme Contra Todos e depois fiquei matutando sobre a quem ou o que o título se refere. "Cada um por si e Deus contra todos" é uma frase de Macunaíma, de Mário de Andrade, uma das obras que melhor captou a natureza contraditória do brasileiro. Cordial e truculento, caloroso e insensível, preguiçoso (?) e esforçado, transgressor e comodista.

Uma família de classe média baixa que poderia ser de qualquer metrópole brasileira. O pai já perdeu a esposa e tenta apaziguar sua consciência criminosa freqüentando cultos evangélicos. De uma maneira bem idiossincrática, ele tem boas intenções, até onde um matador profissional se permitiria. Sua segunda mulher, frívola e infiel, tenta fazer de sua casa um lugar minimamente habitável, sem sucesso. A filha adolescente não engole os maneirismos crentes do pai, que transbordam hipocrisia, e se rebela. Um dia o amante da mulher aparece morto, com os genitais mutilados. A partir daí todos são sugados para o vórtex do ódio, da incompreensão e da desumanidade. Tipo Shakespeare na Cidade de Deus.

Por falar em C. de D., seu diretor, Fernando Meirelles, participa desse como produtor. Um filme triste e raivoso, onde os personagens gravitam em torno de sexo, violência e dinheiro, tentam sair dessa órbita mas sempre são tragados de volta pelo tal vórtex. Depois do caso do menino de 6 anos que foi arrastado no asfalto, parece que virou moda esse dogma bem fascistinha de que a criminalidade não é um problema sócio-econômico, e sim de desvio de caráter. Tenho cá minhas dúvidas: se tivéssemos uma renda per capita nos patamares dos EUA, para citar um país também violento, certamente teríamos índices de criminalidade europeus. Mas isso é pura especulação. O que eu quero dizer é que o passado desses personagens explica seu presente atormentado; são engrenagens do mecanismo que banaliza a violência e, desse modo, incentiva sua perpetuação.

O bacana de Contra Todos é que o enredo pode até ter uns furos e ser previsível, já vimos as mesmas situações em outros lugares. Mas o desempenho dos atores, sobretudo do trio pai, madrasta e filha, aliado à complexidade dos personagens e uma direção competente coloca o filme em pé de igualdade com ótimas produções similares como O Invasor e O Homem do Ano. Seria ainda melhor se não se levasse tão a sério. Contra os personagens estão uma sociedade cruel, onde bens materiais nunca tiveram tanta importância; religiões "self service", meras ferramentas de conforto e auto-afirmação destituídas de espiritualidade; ou mesmo o destino, que às vezes parece estar rindo de nós em algum canto do Universo.
Nota: 7/10

4 comentários:

Let disse...

Depois vou alugar então!!

Lidiane disse...

Eu já disse, ruivo: faça jornalismo. Você tem todo um jeito.

E olha, muito sinceramente?
Quero ver filme, assim, agora não.
Quero delicadezas e aconchego, pra compensar dias de turbulência intelectual e emocional.
Quero rir, quero dar colo a um gato peludo, quero pensar que amanhã vai chegar logo e que ainda há esperança pra humanidade.

Por isso me apaixonei por "mais estranho que ficção".
Tem de ver, ruivo.
Uma coisa boa de assistir, sabe?
De tão leve e bem sacado, chega a dar agonia: por que não pensei nisso antes?

Beijo, beijo.

quevedo® disse...

essa hipocrisia realmente é difícil de engolir.

esse filme foi lançado há muito tempo? não ouvi falar dele.

saudações.

Hank disse...

Pessoalmente eu não gosto desse tipo de filme.
Cheers