sexta-feira, 7 de julho de 2006

Portugal! Portugal!

Passado o choque e a frustração pela eliminação do Brasil na Copa, passei a torcer para Portugal. A melhor culinária do mundo é portuguesa. Bacalhau com natas, não tem nada a ver com essas bacalhoadas salgadas que comemos aqui. Lisboa é uma das cidades mais agradáveis que já conheci, alguns lugares se assemelham a bairros de classe média do Rio e São Paulo, mas há também a parte antiga, Alfama e Mouraria, ruelas íngremes e estreitas que levam ao Castelo de São Jorge, a melhor vista da cidade. Sem falar no Bairro Alto, com uma porção de bares legais, a Expo... isso tá parecendo guia turístico, quero falar de outra coisa. Antes disso, no entanto, quero deixar aqui um protesto: não achei sequer uma foto decente de Lisboa para colocar aqui. Absurdo.

Os desdobramentos gerados pela performance das seleções na Copa dizem muito sobre a natureza dos povos representados e vão muito além das quatro linhas. Um clichê ultra-desgastado é a comparação da Copa a um palco e um campo de batalha, simultaneamente, onde nossos representantes agem como atores - não no sentido de cavarem penalties e fingirem contusões e sim como dançarinos que tentam criar obras de arte em tempo real - e como soldados. Espetáculos e/ou batalhas implacáveis, que não perdoam erros, sobretudo quando a imagem que o ator/soldado tem de si mesmo não corresponde à realidade.Nesse cenário o espírito dos países participantes se revela, às vezes involuntariamente, cada seleção é um microcosmo. Apesar destas analogias envolverem perigosas generalizações que podem nos levar a estereótipos e equívocos, vou me arriscar, respaldado pelo que tenho lido e ouvido.

Minha simpatia por Portugal vem desde a Copa de 2002, quando foram injustamente desclassificados logo no início. Jogavam bonito, mais artistas que soldados, como nossas seleções de 70 e 82. A própria História do país poderia ser resumida em uma tragédia grega - aliás, a menção à Grécia é bem pertinente, como veremos adiante. De poderosa potência marítima, não soube administrar os recursos que dispunha e logo se tornou uma espécie de vassalo do Império Britânico - este, brioso e cheio de si até hoje, apesar da inegável decadência no Século XX e do fato de não saberem jogar bola mesmo, e não se darem conta disso.

Lembram do MC Hammer, o rapper cuja carreira meteórica, entre as décadas de 80 e 90, vendeu 25 milhões de discos e mesmo assim foi à falência? Acho que ninguém vai lembrar, ele cantava "Can u touch this". Vi ontem uma biografia dele na tv, impressionante a vida do cara, uma mancada atrás da outra. Se Portugal fosse um rapper, seria MC Hammer. Relegados à condição de um dos países mais pobres da Europa Ocidental (e nem dá prá culpar o tamanho, a Bélgica também é minúscula, mas riquíssima), espremidos no finalzinho do continente, cercado pelo mar e espanhóis exuberantes por todos os lados, "orgulho nacional" era uma expressão esquecida pelos portugueses até alguns anos atrás. A entrada na Comunidade Econômica Européia trouxe investimentos, modernizou o país e elevou a auto-estima do português (mas por mais que tentem parecerem sérios, continuam me matando de rir, lembrei de um portuga me contando todo orgulhoso que a Subaru ia construir uma fábrica no país, não tinha uma montadora com nome melhor?). Sediaram uma Eurocopa de forma quase impecável, o único senão foi a derrota contra os gregos na final. O que não deixa de ser um grande mérito para uma seleção que ostentava orgulhosa um terceiro lugar na longínqua Copa de 66 com o mesmo ardor que nós brasileiros exibimos as cinco estrelas no escudo.

Amanhã Portugal vai ter a chance de igualar o feito se bater a Alemanha. No entanto, o consenso é que mesmo se perder, já fez uma campanha excelente, levando-se em conta suas pretensões. O Próprio Felipão afirmou que se conseguisse colocar Portugal entre os quatro finalistas esse seria um dos três maiores feitos de sua carreira. E os lusitanos estão de acordo, visto que mesmo após a derrota contra a França, saíram às ruas promovendo buzinaços e gritando "Viva Felipão". O fato é que o português está pouco acostumado com o êxito. Nada como o ritmo local para definir um povo. Existe algo mais melancólico e nostálgico que um fado? O sucesso na Copa levou o país a refletir sobre essa espécie de castigo auto-imposto, em outras palavras, medo de ser feliz. Transcrevo o comentário de um colunista português citado por Clóvis Rossi na Folha:

"Se por ventura acabarmos campeões do mundo de futebol, como havemos de conciliar a alma de vencedores desta guerra mitológica com o velho fado de derrotados na vida concreta da nação? A seleção já fez o que tinha a fazer por nós - mesmo que não ganhe a Copa. Resta saber o que podemos fazer para merecermos a seleção."

Que dizer do Brasil? Nosso fracasso não me surpreendeu, a seleção estava lá como um microcosmo do país, uma representação natural do brasileiro que "sobe na vida": vaidoso, individualista, com pouco ou nenhum senso cívico. O brasileiro é fundamentalmente bom, solidário, honesto e trabalhador. Mas se transforma quando é alçado ao poder. Nossas elites têm uma péssima auto-imagem, a parcela da população que pode fazer a diferença, abraçar nossos valores, reforçar a identidade nacional, reconhecer os defeitos e tentar corrigi-los se assume como escória. Atua na base do salve-se quem puder, sem noção de coletividade e incapaz de aprender com os próprios erros - esperem até o resultado das eleições... O cúmulo e símbolo máximo da estupidez da seleção foi tomar o gol da França cometendo o mesmo erro que Gana incorreu e nos beneficiou: a patética linha de impedimento, retrato mais bem-acabado de nossa arrogância preguiçosa. Nossa seleção foi exatamente assim, parecia um bando de mercenários. O pobre cidadão brasileiro ficou revoltado com a falta de dignidade dos que vestiram nossa camisa, mas só agora está começando a enxergar que a indignidade permeia o Estado, não importa quem está no poder. Nos países civilizados, os espaços públicos são cuidados como sendo de todos; aqui não são de ninguém, ou melhor, são ocupados por "estados paralelos", os PCCs da vida que assume controle das áreas que o Estado ignora.

Acho que poucos jogadores realmente se importaram com nossa eliminação, vão continuar na Europa, de costas para nós, com seus estilos de vida luxuriantes. Não acho que devem ser culpados, pois apenas reproduziram o que presenciavam quando viviam aqui: majoritariamente de famílias pobres, nunca puderam exercer de fato sua cidadania - que não é só direito a voto - e nunca sentiram que fazem parte de algo maior, uma República que na prática inexiste. Diferenças gritantes: a garra de portugueses e franceses contrastando com nossa apatia. Pois para eles, o futebol é apenas mais um "território" onde podem lutar por seus países e se sentirem acolhidos e recompensados. Aqui, só somos um país quando jogamos futebol.

6 comentários:

quevedo® disse...

que vença a Equipa Lusa!

Lidiane disse...

EStou me organizando pra nas férias do ano que vem ir pra Portugal, Espanha e França.
Tomara que dê certo.

quevedo® disse...

não deu pra Portugal, mas pelo menos, para honrar a latinidade, Itália sagrou-se campeã.

Let disse...

Adorei o texto, mto bem escrito e original

Anônimo disse...

I like it! Good job. Go on.
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Anônimo disse...

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