terça-feira, 17 de junho de 2008

The Cat Inside

Tigrinha

50 dias sem nem olhar o blog. E, de repente, me deu vontade de escrever um post. Botem a culpa nos gatos. E em William Burroughs. Chique no úrtimo, hein? Já devo ter falado desse cara antes, mas ele merece ser relembrado.

Burroughs é um ícone da geração beat. Tudo bem, mas o que é beat? Boa pergunta. O termo foi tão manipulado ao longo das transformações sociais ocorridas nas últimas décadas que ficou difícil defini-lo. Vou tentar pelo início. No final dos anos 40, Jack Kerouac e Neal Cassady botaram o pé na estrada e cruzaram os EUA de carona embalados por jazz e bebedeiras. Daí saiu um manuscrito redigido numa folha de bobina ou algo parecido, com 36 ms de comprimento. On the Road, um romance de formação marginal - no sentido de estar à margem - um exercício de liberdade e desapego, a semente da contracultura. Ser beat significava, na concepção de Kerouac, buscar crescimento espiritual através da assimilação de culturas e religiões diferentes. Guiar-se, acima de tudo, por sua consciência e expandi-la ao máximo, inclusive através de drogas, abraçar valores como espontaneidade e inconformismo; desprezar a indústria cultural e o materialismo. Ter uma visão de mundo libertária, tolerante, livre de preconceitos. A expressão foi tirada de uma gíria do submundo que significa "surrado", "detonado", em suma: de mal a pior. Mas para Kerouac definia uma postura de estar por baixo, no fundo, mas com a visão voltada para o alto, o topo. Daí sua semelhança com o termo "beatífico".

Cá entre nós, tudo muito virtuoso, mas vovó já dizia que esse tipo de coisa costuma dar em merda.

Mas para a opinião pública, beat eram jovens boêmios hedonistas, despudorados e rebeldes. Logo surgiu o termo "beatnik", uma forma pejorativa de se referir à turma de Kerouac, Allen Ginsberg, Cassady e Burroughs. E, como era de se esperar, a mídia e o sistema capitalista se apropriaram da palavra e a distorceram da forma que pudessem lucrar mais com ela. Mesmo assim, teve grande influência sobre movimentos posteriores, como os hippies e os punks.

De vanguarda a estereótipo

Entre os precursores do movimento, Burroughs foi um dos que mergulhou mais fundo em sua própria filosofia. Sua bissexualidade e tendência à drogadição manifestaram-se desde a adolescência. Graduou-se em Harvard, passou uma temporada na Europa e quando regressou o ataque a Pearl Harbor tinha acabado de acontecer. Quis alistar-se, mas seu passado de instabilidade mental relegou-o à posição de recruta, o que o deixou muito deprimido. Serviu o exército por alguns meses, nunca deixou seu quartel. Em 1944 mudou-se para um apartamento com Kerouac, sua esposa e Joan Vollmer, com quem veio a se casar. Nessa época começou a usar morfina e logo se viciou, tornando-se traficante para manter o vício. Sua esposa também passou a usar drogas, problemas com a lei eventualmente surgiram. Tiveram que fugir para o México. Em 1951 matou Joan com um tiro na cabeça enquanto brincavam de "Guilherme Tell": ele tinha que atirar numa maçã na cabeça da esposa com uma arma de fogo, completamente bêbado.

Burroughs e Kerouac

Segundo Burroughs, esse evento marcou seu nascimento como escritor. A morte de Joan apresentou-o ao invasor, o Espírito Horrendo, que só podia ser confrontado através da liberação do fluxo de consciência através da escrita. Entendeu? Nem eu. Mas Burroughs não é pra ser entendido. E suas peripécias estavam apenas começando.

E o que os gatos têm a ver com isso tudo? Na próxima. Mas não pude evitar a publicação de uma foto da Tigrinha, filha da segunda prole de Branquinha - em breve apresentarei todo o clã felino.

3 comentários:

Paulinha Köstlich disse...

uau! que bom entrar em um blog e dar de cara com uma citação de Cervantes!
Embebedar-me-irei logo mais em tua escrita!
tks pela visita!

Anônimo disse...

"Segundo Burroughs, esse evento marcou seu nascimento como escritor. A morte de Joan apresentou-o ao invasor, o Espírito Horrendo, que só podia ser confrontado através da liberação do fluxo de consciência através da escrita. Entendeu? Nem eu. Mas Burroughs não é pra ser entendido. E suas peripécias estavam apenas começando".

Bruno,

acho que entendi o que ele quis dizer. Às vezes tbm sinto uma necessidade premente de escrever. Um evento traumático ou uma sucessão de traumas e seu confronto nos levam a um estado tal que precisamos de alguma forma nos expurgar, e a escrita é um meio para essa necessária e inevitável catarse. Foi isso que entendi. Abraços. Acho que sabe quem escreve. Comigo está tudo bem. E com vc? Mande e-mails...

Anônimo disse...

Acabo de voltar do "spa". O talento q vc tem prá escrita e alinhavamento de racíocinio,ainda´me surprende!Começo a trabalhar na minha pequena empresa segunda.UPS.........q bisssinho mair lindio! Sei q seria impossível dar certo!Mas,conhecemos a essência um do outro!Te defenderia não só por gratidão, mas pelo q devolveu em mim.Vou te pagar, não é promessa;é honra.E,aaaaaaah, há ainda,que as pequenas pendências, qdo vc tiver preparado me liga...só não se identifique.fik bem,tá? Sempre sua AMIGA,DANNY!