quinta-feira, 29 de março de 2007

Sangue no Banho da Santa

Estou de volta, e vou começar com um post-denúncia. Quando criei esse blog queria, entre outras coisas, lidar com o novo: notícias, histórias, reflexões que não seriam facilmente encontradas nos meios de comunicação de massa ou mesmo em outros blogs. Obviamente, meu intento nunca foi realizado, é muita presunção achar que seria o "emissário do desconhecido". Mas foi só eu me ausentar por algumas semanas que nem precisou eu ficar matutando sobre o que escrever, pois uma notícia bombástica veio ao meu encontro.

Uma bela cidadezinha do nordeste, quilômetros de praias de vários tipos, vegetação exuberante (ainda que bem devastada), gente bonita de todos os lugares etc. Seria uma sucursal do paraíso se não houvesse um outro lado da moeda. Sujeira, muita droga, especulação imobiliária, um certo tom predominante de oportunismo e imoralidade, sobretudo nas relações entre gringos e locais (não confundir com nativos, os locais são pessoas de outros lugares que se mudaram para lá). Contudo, são esses contrastes que fazem do balneário uma localidade muito peculiar, tipo um laboratório, ainda que toda cidade turística costeira de país pobre tenha os mesmos prós e contras, em maior ou menor grau. Um camaradinha que mora lá há mais de 20 anos comparou-a a uma espécie de "metamundo" (será que estou falando besteira?), uma versão miniatura de nossa sociedade, suas delícias e mazelas. Disse que viu sua ascensão, apogeu e agora presencia sua decadência. E exemplificou contando um caso que tinha acabado de acontecer.

Naquele mesmo dia, o corpo de uma mulher fora encontrado em um lugar tido como sagrado, uma fonte onde as pessoas que voltam da praia tomam uma ducha, o Banho da Santa. Na verdade, essa cascatinha foi a responsável pela fundação do vilarejo, em 1550. Suas águas são consideradas milagrosas, têm o poder de curar e diz-se que quem se deixar tocar por elas nunca vai deixar a vila. De um modo ironicamente macabro, a superstição funcionou com a moça: ela foi sepultada no cemitério mais próximo.

Pelo que pude apurar, ela era do sul da Bahia, tinha 31 anos, nível sócio-econômico razoável e foi morta da forma mais bárbara possível, apedrejada e estuprada, durante a madrugada. No início achei que fosse um boato, uma lenda praiana, pois estava hospedado a um quarteirão do Banho e pela manhã, poucas horas depois da presumível hora do crime passei em frente ao local e não havia nada, nem polícia, peritos, nada isolando a área. Na volta, ainda desinformado, tomei banho na ducha e notei, num canto, uma grande mancha vermelha no chão.

Falei disso pro cara e ele disse que aquilo era uma espécie de procedimento padrão adotado quando ocorrem crimes violentos. Não é do interesse de ninguém divulgar fatos como esse, é ruim pra polícia, pros políticos, pra quem trabalha com turismo. Então faz-se o possível para acobertar as tragédias. Isso sim, é importante. Achar os assassinos, procurar pistas, descobrir o motivo? Quem liga pra isso? Quem se importa com uma mulher que vivia sozinha e não tinha família? Disseram que provavelmente ela estava envolvida com drogas ou prostituição. Pode até ser, mas quando ouvi isso sendo repetido por pessoas diferentes, fiquei meio de deprê. A fim de se eximir da culpa, a polícia solta rumores desqualificando e caluniando a vítima, como se ela própria fosse a culpada por sua morte e não merecesse qualquer atenção. Dá nojo.

Eu queria ter dado uma de repórter, já que nos dias seguintes vi que, de fato, o crime fora muito bem acobertado. O post ia ficar mais legal. Não saiu no jornal nem na tv. Mas como eu já estava sacando que por trás da fachada de donos de restaurantes e pousadas tinha muito argentino e italiano, entre outros, envolvidos com coisas escusas em seus países, achei mais prudente ficar quieto. A vila é o esconderijo de muito nêgo cabuloso, não é brincadeira. As pessoas comentaram sobre o assassinato por uns dias, acharam normal o comportamento da polícia e logo o assunto foi esquecido. Lá todo dia tem festa, rave, luau, o escambau. A rua mais chique, com boutiques e restaurantes caros, me lembrou a Disneylândia. Ela começa onde as prostitutas fazem ponto, algumas com cara de criança. Pelo preço que me disseram que cobram, não dá pra comer nem uma porção de fritas e um chope. Cheers!

Sabem de que lugar estou falando?

2 comentários:

Lidiane disse...

Sei sim.
E, você já me conhece: gosto de tranqüilidade, gente simples, gente boa e mentes borbulhantes.
Mas lá tem praia. E gosto de praia.
Só que essa situação toda descrita não combina com o que eu quero pra minha vida. Apesar do sol, apesar do mar e apesar do quase-novo-morador de lá.
Vou de visita. Se convidada.
E volto pra o aconchego do silêncio da minha casa.
E, querendo passear, fritas e chope por aqui, são mais baratos.

Beijos.

Hank disse...

É um troço nojento, mas infelizmente muito corriqueiro.
Cheers