quarta-feira, 30 de julho de 2008

Dandelion

Quando sua segunda filha nasceu, Keith Richards batizou-a "Dandelion". Ela mudou seu nome assim que pôde para "Angela"


Prince or pauper, beggar man or thief
Play the game with every flower you bring
Dandelion don't tell no lies
Dandelion will make you wise
Tell me if she laughs or cries
Blow away dandelion

One o'clock, two o'clock three o'clock, four o'clock chimes
Dandelions don't care about the time
Dandelion don't tell no lies
Dandelion will make you wise
Tell me if she laughs or cries
Blow away dandelion, blow away dandelion

Though you're older now it's just the same
You can play this dandelion game
When you're finished with your childlke prayers
Well, you know you should wear it

Tinker, tailor, soldier, sailors lives
Rich man, poor man, beautiful, daughters wives
Dandelion don't tell no lies
Dandelion will make you wise
Tell me if she laughs or cries
Blow away dandelion, blow away dandelion

Little girls and boys come out to play
Bring your dandelions to blow away
Dandelion don't tell no lies
Dandelion will make you wise
Tell me if she laughs or cries
Blow away dandelion, blow away dandelion

Charles Wish


Já tinha muito tempo que eu eu não achava um artista plástico legal na web. Aí o stumble me vem com um mais ou menos no estilo dos caras que já publiquei, como o Yerka. Mas mais doido ainda. O cara mescla cultura pop, igreja, o american way of life e erotismo numa embalagem onírica, ou perturbardora, se preferir. Não vá julgando à primeira vista, a reação inicial remete a morbidez e perversidade, contudo, o tal Charles Wish é cuidadoso, detalhista. Tem coisas que se parecem com polaróides do inconsciente.


Vejo uma vontade de romper convenções: a garota de piercing chupa um picolé ligado por um fio ao carrinho do sorveteiro, que parece pertencer a um homem-elefante. Seria uma referência ao filme de David Lynch?


As imagens mereciam estar num tamanho maior. Repare no simbolismo da moldura da janela: um triângulo invertido, dentro de um quadrado, dentro de um octógono. No telhado, o boneco de um fauno(?).

Essa eu acho que o Jabor ia gostar. Bin Laden é Cristo, e parece estar prestes a ser esmagado por um trator; o ás de espadas na cruz, o verdadeiro Cristo dá a impressão de ser o condutor, segurando o rabo do diabo (???). O anjinho Tio Sam observa. E por aí vai. Estou achando esses comentários meus supérfluos e idiotas.

Dentre as que mostrei é a minha favorita. Não, não é por causada mulher pelada, várias outras que descartei também têm. O belo tom do céu com nuvens espiraladas. Um John Wayne comendo pipoca enquanto ouve conselhos de um anjo. O símbolo do feminino ao fundo.

Wish nasceu em 1971. Estudou religiões orientais, com ênfase em budismo tântrico, seitas indianas e filosofia hindu, chegando a morar num monastério. Simultaneamente, era fascinado com pintores regionalistas americanos, como Grant Wood - autor do célebre American Gothic:


Agora, a paródia, ou tributo, de Charles Wish:


Como diz a biografia dele, num mundo onde as barreiras culturais foram demolidas, Wish se utiliza de uma realidade onde cada cultura foi afetada e alterada por influências externas, e que para a Humanidade encontrar seu território em comum (com o outro e consigo mesmo) é necessário harmonizar essas múltiplas culturas para enfim criar sua própria individualidade a partir de um repositório infinito de possibilidades. Ficou confuso? No original está melhor.

A biografia vai mais além. As visões de Deusas Tântricas associadas a paisagens rurais, apesar de parecerem opostas, na ótica de Wish se complementam: os temas orientais trazem mistério e possibilidades infinitas, o provincianismo remete à preservação da cultura e tradições locais. O efeito, tanto no artista quanto no espectador resulta numa abordagem inclusiva, em busca da quintessência - esse termo não consta no original, mas achei que caía bem - das coisas até chegarmos aonde "resta apenas o divino".

Wish está vivo, casado, mora na Califórnia e aos poucos está ganhando notoriedade. Um crítico classificou seu estilo como "surregionalismo".

Alguém gostou? Achei que seria um prato cheio pra quem se liga nessas coisas de inconsciente, semiótica e mais uma porção de assuntos impertinentes. Dá até pra brincar de "ache a referência". Tem mais um monte em: http://www.charleswish.com/index.htm
Enjoy.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Fuck You





I. Fuck na História, fuck na TV
, fuck a política

É comum na língua inglesa o som das palavras se parecer com seu significado, como splash (molhar) ou crash (colidir). Fuck não é exatamente uma onomatopéia, mas o som da palavra - simples, conciso, direto, algo agressivo - combina com o que ela representa. É até gostoso de falar.

Pois eu e os norte-americanos temos uma tendência de voltar nossa atenção para coisas pouco importantes, como a questão do banimento de uma palavra do léxico de toda uma língua. Os defensores da idéia são os mesmos wasps, republicanos e intolerantes em geral. Mas sempre tem algum cabeludo pegando no pé deles, graças a Deus. Veja você: fizeram um documentário inteiramente dedicado a essa polêmica palavrinha de 4 letras. De onde ela veio? É lícito proferi-la na TV? E em casa? Se falar Deus castiga? (Êta falta do que fazer... protesta meu ombudsman.)

A origem do vocábulo é controversa. Se você já ouviu de algum sabichão que fuck é um acrônimo de "Fornication Under Consent of the King", uma plaquinha que as autoridades afixavam na porta da casa de algumas famílias na Inglaterra medieval, permitindo a prática do sexo, saiba que essa historinha foi inventada pela Playboy nos anos 70. Na verdade ninguém sabe de onde veio. Um cara até falou que foi a primeira palavra da língua ancestral que veio a se tornar o inglês. Pode até ser, visto que além de seu significado original, a palavra pode ser empregada de várias outras maneiras, como o nosso "que merda!" (what a fuck!) ou "cadê a porra da chave?" (where is the fucking key?).

Numa sociedade repressora e paranóica como a americana, criou-se uma grande celeuma em torno do emprego da palavra nos meios de comunicação de massa, polarizando opiniões e inflamando debates. Fuck é, talvez, o único palavrão "espacial", pois já foi à Lua através de um comentário do astronauta Buzz Aldrin e mesmo o grande guardião do conservadorismo americano, o Presidente Bush, já a proferiu na frente das câmeras. Ainda assim, fuck permanece um tabu nas TVs abertas do Tio Sam. Podia ser pior, não fosse a audácia de bravos desbocados, como o stand up comedian - humorista tipicamente americano que entretém a platéia sozinho em bares e night clubs - Lenny Bruce. Foi preso 5 vezes por falar fuck em seu show. Eram shows fechados, para maiores de 18. Se Lenny não tivesse existido, teria que ser inventado. Foi ele quem peitou os juízes e insistiu em seu direito de livre expressão garantido pela Constituição. Afinal, gritar fuck ou foda-se não deixa de ser um ato de libertação.

Foda-se: o definitivo caminho espiritual


Eram tempos conturbados. Soldados americanos voltando do Vietnã em body bags, ou crianças vietnamitas derretendo com napalm pareciam ser menos obscenos que dizer fuck.

Acho que aqueles que são contra o fuck estão confundindo lei com moralidade. Em 2003 Bono Vox falou fuck em seu discurso de agradecimento pelo globo de ouro, ao vivo, para milhões. A imprensa marrom de sempre viu aí uma polêmica rentável; e cobrou-se das autoridades uma explicação. Fala palavrão na tv e sai ileso? O governo argumentou que naquele caso a palavra não estava sendo usada num sentido obsceno. Mas uma tal comissão de pais em defesa da moral e bons costumes, ou algo assim - republicanos de ultra-direita - fez as autoridades voltarem atrás e condenarem publicamente a fala de de Bono, além de multá-lo. Enquanto isso, na Noruega, uma banda hardcore promove sessões de sexo explícito em seus concertos a fim de chamar a atenção para o aquecimento global. Faz sentido.

Será que as criancinhas, que se arrependem amargamente por terem dito fuck, temendo um castigo divino, teriam alguma razão? A pergunta soa tola e infantil, mas tem muito cristão fanático que acha que sim. Tavez porque Deus seja uma entidade assexuada, não há uma "Sra. Deus". Então se ele não fode, provavelmente não se sente à vontade com a palavra que ele é incapaz de praticar.

"Se o Presidente não pratica a "f-word" com a esposa, fatalmente o fará com o país."
Mel Brooks

O supra-sumo da hipocrisia ocorreu quando o vice do Bush, Dick Cheney, falou fuck yourself a um senador democrata, em pleno Congresso, os "paladinos da moral" não deram um pio.


II. Fuck na Família e o que há por trás disso

Uma das maiores catástrofes que pode ocorrer numa típica família ianque é o filho menor aprender a palavra fuck. Em sua visão paranóico-fatalista, seria o primeiro passo para uma vida de crime, vício, imoralidade, vergonha etc. Dizem que essas mesmas famílias não querem ouvir palavras de baixo calão nos filmes, mas uma baboseira intitulada "Meet the Fockers" fez um sucesso estrondoso.

Cartaz do doc

Tudo isso, ou quase tudo, vem de um documentário que vi na HBO. Cultura inútil total, mas bem dirigido, com depoimentos interessantes. E é dedicado a meu ídolo Hunter S. Thompson, o criador do gonzo journalism, que mescla o objetivo com o subjetivo,vai além da simples notícia, tem toques literários, é sarcástico, irreverente, por vezes narra as histórias em primeira pessoa; entre estilo e precisão, prefere o primeiro. No depoimento que ele presta no doc, mostra-se preocupado com os rumos que a política e a sociedade americana estão tomando. A multa para quem disser fuck na tv aumentou em 10 vezes. Alguns congressistas lutam para estender a proibição para a tv paga. O radialista Howard Stern, conhecido por sua total falta de vergonha e posturas liberais, foi obrigado a transmitir seu programa via satélite para acabar com a perseguição constante que sofria, inviabilizando seu trabalho. Felizmente, a censura ainda não chegou ao espaço.

O pior de tudo não é a força e a intensidade da onda conservadora que tornou os americanos ainda mais intolerantes, arrogantes, moralistas e bitolados. O problema é a politização dos parâmetros que regulam o uso da palavra. Por exemplo: "fuck Iraq" ou "fuck the muslims" têm mais chances de passarem batido que "fuck the president" ou "fuck the american way of life", ou ainda "fuck the Cadillacs". Menos de um ano depois que Bono falou seu fuck, exibiram na tv aberta "O Resgate do Soldado Ryan". Há 21 fucks no filme. A FCC (Federal Communications Commission) a agência estatal que dita o que pode e o que não pode passar na tv, não considerou sequer um fuck ofensivo, o filme passou sem cortes.

Antes de adotar uma postura repressora em questões que envolvam liberdades individuais, não podemos nos esquecer que o que já foi tabu no passado, como a mulher desquitada buscar um novo amor ou a igualdade de raças são fatos inquestionáveis hoje em dia. Quem lutou por esses direitos hoje luta por mais liberdade nos meios de comunicação de massa. Como disse Voltaire:

"Posso não concordar com uma só palavra que você disse, mas lutarei até a morte pelo seu direito de expressá-la.
" Ou algo parecido.

A questão do tal "livre-arbítrio" é espinhosa. O leitor(a) pode me botar contra a a parede: seria "liberal" permitir que pessoas alcoolizadas conduzam veículos ou apenas estupidez?

O fato é que por trás da polêmica do fuck, a pergunta fundamental é: a Humanidade já é madura o suficiente pra que se permita que cada um exerça de forma incondicional seu livre-arbítrio? Infelizmente, é óbvio que não. Ainda somos a mesma criança amedrontada de milhares de anos atrás. Uma criança que teme, acima de tudo, a si mesma, e que por isso ainda se apega às leis mais primitivas, como o vergonhoso "olho por olho" de Hammurabi. Parece que somos o pai de nós mesmos repetindo: tire os cotovelos da mesa, mastigue de boca fechada e não fale palavrão. Tememos um castigo. Qual seria ele?

terça-feira, 17 de junho de 2008

Figuras a esmo





The Cat Inside

Tigrinha

50 dias sem nem olhar o blog. E, de repente, me deu vontade de escrever um post. Botem a culpa nos gatos. E em William Burroughs. Chique no úrtimo, hein? Já devo ter falado desse cara antes, mas ele merece ser relembrado.

Burroughs é um ícone da geração beat. Tudo bem, mas o que é beat? Boa pergunta. O termo foi tão manipulado ao longo das transformações sociais ocorridas nas últimas décadas que ficou difícil defini-lo. Vou tentar pelo início. No final dos anos 40, Jack Kerouac e Neal Cassady botaram o pé na estrada e cruzaram os EUA de carona embalados por jazz e bebedeiras. Daí saiu um manuscrito redigido numa folha de bobina ou algo parecido, com 36 ms de comprimento. On the Road, um romance de formação marginal - no sentido de estar à margem - um exercício de liberdade e desapego, a semente da contracultura. Ser beat significava, na concepção de Kerouac, buscar crescimento espiritual através da assimilação de culturas e religiões diferentes. Guiar-se, acima de tudo, por sua consciência e expandi-la ao máximo, inclusive através de drogas, abraçar valores como espontaneidade e inconformismo; desprezar a indústria cultural e o materialismo. Ter uma visão de mundo libertária, tolerante, livre de preconceitos. A expressão foi tirada de uma gíria do submundo que significa "surrado", "detonado", em suma: de mal a pior. Mas para Kerouac definia uma postura de estar por baixo, no fundo, mas com a visão voltada para o alto, o topo. Daí sua semelhança com o termo "beatífico".

Cá entre nós, tudo muito virtuoso, mas vovó já dizia que esse tipo de coisa costuma dar em merda.

Mas para a opinião pública, beat eram jovens boêmios hedonistas, despudorados e rebeldes. Logo surgiu o termo "beatnik", uma forma pejorativa de se referir à turma de Kerouac, Allen Ginsberg, Cassady e Burroughs. E, como era de se esperar, a mídia e o sistema capitalista se apropriaram da palavra e a distorceram da forma que pudessem lucrar mais com ela. Mesmo assim, teve grande influência sobre movimentos posteriores, como os hippies e os punks.

De vanguarda a estereótipo

Entre os precursores do movimento, Burroughs foi um dos que mergulhou mais fundo em sua própria filosofia. Sua bissexualidade e tendência à drogadição manifestaram-se desde a adolescência. Graduou-se em Harvard, passou uma temporada na Europa e quando regressou o ataque a Pearl Harbor tinha acabado de acontecer. Quis alistar-se, mas seu passado de instabilidade mental relegou-o à posição de recruta, o que o deixou muito deprimido. Serviu o exército por alguns meses, nunca deixou seu quartel. Em 1944 mudou-se para um apartamento com Kerouac, sua esposa e Joan Vollmer, com quem veio a se casar. Nessa época começou a usar morfina e logo se viciou, tornando-se traficante para manter o vício. Sua esposa também passou a usar drogas, problemas com a lei eventualmente surgiram. Tiveram que fugir para o México. Em 1951 matou Joan com um tiro na cabeça enquanto brincavam de "Guilherme Tell": ele tinha que atirar numa maçã na cabeça da esposa com uma arma de fogo, completamente bêbado.

Burroughs e Kerouac

Segundo Burroughs, esse evento marcou seu nascimento como escritor. A morte de Joan apresentou-o ao invasor, o Espírito Horrendo, que só podia ser confrontado através da liberação do fluxo de consciência através da escrita. Entendeu? Nem eu. Mas Burroughs não é pra ser entendido. E suas peripécias estavam apenas começando.

E o que os gatos têm a ver com isso tudo? Na próxima. Mas não pude evitar a publicação de uma foto da Tigrinha, filha da segunda prole de Branquinha - em breve apresentarei todo o clã felino.

sábado, 26 de abril de 2008

O Caminho do Guerreiro Pacífico - Atualizado

Esta história não é de minha autoria. Vem de um filme, adaptação do livro que intitula este post.


Capítulo I


Ok, você é jovem, bonito, exímio na ginástica olímpica, popular, família rica, aluno exemplar. Sente que o mundo inteiro cabe em suas mãos. Então porque não dorme à noite? Vai saber... Fica perambulando pela madrugada, passa numa loja de conveniência e compra um gatorade - você também não tem vícios. O frentista, um velho barbudo, usando um sapato de cada cor, do nada faz algo fora do comum que chama sua atenção, mais que isso, te instiga, como se você tivesse que provar alguma coisa a ele. Muito estranho, se compararmos suas posições na pirâmide social, ou mais exatamente, na cadeia alimentar. Você é um grande felino, ele, no máximo um roedor. Os atletas mais completos são os ginastas. Ele te fala dos guerreiros espartanos de elite, cujo treinamento envolvia saltar sobre touros, sabia disso?
"Sei mais do que você imagina", é sua resposta.
Com ares de filósofo, ele retruca:
"Imagina mais do que sabe. Conhecimento não é o mesmo que sabedoria".
Que velho atrevido, que chavão mais surrado!
"É mesmo? Qual a diferença?" Sua voz não esconde a irritação.
"Sabe limpar um pára-brisa?" E ele atira uma bucha pra você. Ele está abastecendo um carro e você esfrega a bucha no vidro, sem pensar naquilo. "Sabedoria é agir."

"Sabedoria é agir"... ele deve ter visto isso naquele filme caça-níquel O Segredo. Mas você volta pra casa pensando naquilo.



Capítulo II


Ao dormir na noite seguinte com uma modelo aspirante a atriz ruiva e siliconada, sonha que está praticando nas argolas quando cai e sua perna se esfacela em pedaços. Um servente varre os caquinhos. Ele usa os mesmos sapatos do frentista.

Deixa a ruiva sem entender nada. Aquilo te impele para o posto:
"Porque usa um sapato diferente do outro? É uma moda nova entre os proletas?"
Ele não se abate com o comentário preconceituoso:
"Acidentei-me quando praticava."
Você o estuda. Parece emanar uma confiança inquebrantável, uma serenidade à toda prova. Quer diminuí-lo:
"Sabe que um dia você pode sair no Fantástico? 'O frentista que virou guru de auto-ajuda'. Já estou até imaginando o Cid Moreira narrando."
Ele te lança um olhar com tamanha piedade que você continua:
"Treino 7 dias por semana. 50 semanas por ano!"
"Pra quê?"
"Cê tá brincando, né? Estou prestes a conseguir a classificação." Você reforça a última palavra, pra calar a boca dele de vez. Mas isso é impossível:
"Classificação pra quê?"
"Acompanha as Olimpíadas?"
"Não."
Que lunático... ainda assim como ele coseguiu fazer aquilo que te impressionou tanto?
"Olha, mesmo sendo bom, tenho que dar o melhor de mim pra conseguir minha classificação para os Jogos Olímpicos."
"Você ainda precisa aprender muita coisa pra entender o que acabou de ver."

É verdade. Mas é claro que você não dá o braço a torcer:
"Então me teste. Faça uma pergunta. Qualquer uma. Manda ver, sem dó".

Pausa. Ele está debruçado sobre o motor de um Chevette que já devia estar no ferro-velho há anos. Ergue a cabeça e te encara:
"Você é feliz?"

Putaquepariu. Mais uma vez ele te desconcerta. Você é inundado por duas sensações quase conflituosas. O fascínio da criança ao ver o mágico tirando o coelho da cartola, e a vergonha raivosa que te apossou quando foi flagrado pela professora com uma revista pornô em frente de toda a classe. Sem se dar conta, você fica olhando pra ele de boca aberta, tirando e botando a mão no bolso. Não tem resposta para aquilo. Com o silêncio, ele volta a te olhar:
"Disse que eu podia perguntar qualquer coisa."
"O que felicidade tem a ver com isso?"
"Tudo."
E você passa a desfiar o rosário de maravilhas que é sua vida. Grana, notas altas, popularidade, garotas, sua moto Triumph de 800 cc, sua quase certeza de participar das Olimpíadas etc.
"Então porque não dorme à noite? Que está fazendo aqui mais uma vez se exasperando com um frentista às 3 da manhã?"

E mais uma vez ele está certo:
"Quem é você, o filósofo do posto Shell?"
"Precisa de filosofia?"
"Não, valeu, Platão, já tenho o suficiente na faculdade." Você diz isso já de saída, dando um esbarrão proposital nele. Babaca.

"Última pergunta, ginasta olímpico. Suponhamos que não seja classificado. O que você faria?"
(continua)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Ateu Attacks!

Brasileiro adora igreja. Enquanto ouvia agora há pouco um homem histérico berrando e cantando músicas medonhas num templo crente pensei numa coisa. Se um ET desembarcasse na Terra afim de pesquisar objetos de nossa devoção, sua descrição do Cristianismo seria mais ou menos assim:

Crença em um zumbi judeu cósmico que é o pai de si mesmo e te dará vida eterna se você comer sua "carne" e telepaticamente contar a ele que você o aceita como seu mestre; para que então ele possa remover de sua alma uma força maléfica que está presente na Humanidade porque uma mulher feita de uma costela foi convencida por uma cobra falante a morder um fruto de uma árvore mágica.

Faz sentido!

terça-feira, 15 de abril de 2008

O Caminho do Guerreiro Pacífico

Esta história não é de minha autoria. Vem de um filme, adaptação do livro que intitula este post.

Ok, você é jovem, bonito, atlético, popular, família rica, aluno exemplar. Sente que o mundo inteiro cabe em suas mãos. Então porque não dorme à noite? Vai saber... Fica perambulando pela madrugada, passa numa loja de conveniência e compra um gatorade - você também não tem vícios. O frentista, um velho barbudo, do nada faz algo fora do comum que chama sua atenção, mais que isso, te instiga, como se você tivesse que provar alguma coisa a ele. Muito estranho, se compararmos suas posições na pirâmide social, ou mais exatamente, na cadeia alimentar. Você é um grande felino, ele, no máximo um roedor. Ele te fala dos guerreiros espartanos de elite, cujo treinamento envolvia saltar sobre touros, sabia disso? "Sei mais do que você imagina", é sua resposta. Com ares de filósofo, ele retruca: "Imagina mais do que sabe. Conhecimento não é o mesmo que sabedoria". Que velho atrevido, que chavão mais surrado! "É mesmo? Qual a diferença?" Sua voz não esconde a irritação. "Sabe limpar um pára-brisa?" e ele atira uma bucha pra você. Ele está abastecendo um carro e você esfrega a bucha no vidro, sem pensar naquilo. "Sabedoria é agir."
(continua)


Continua nada. A partir daí o filme descamba para a americanofilia - nem sei se a palavra existe -
resvalando nos clichês de superação pessoal inverossímil, o mestre que acaba aprendendo com o discípulo, essas baboseiras de sempre. Nick Nolte está desperdiçado como o Yoda da Texaco. Mas os extras informam que é baseado em uma história real, um paraplégico que... ah, nem vale a pena contar.

Do the Evolution

Houve uma época, há muito menos tempo que parece, que o videoclipe era o supra-sumo da modernidade. Ir na casa de um amigo e ficar vendo aqueles filminhos toscos e cafonas dos anos 80 era super "in", como se falava, ou em português atualizado, o hype. Céus, estou falando como minha avó! "No meu tempo"..., "a gíria da época", "não se usava fazer isso"... São expressões típicas de quem julga pertencer a outro tempo, nostálgico. Pois é. No meu tempo o Michael Jackson ainda era um ser humano e amarrava-se cachorro com linguiça. Ha ha ha...

Michael does the evolution

Foi esse cara, hoje tido como aberração da natureza, que revolucionou não só a dança, mas toda a indústria da música. Antes do MJ havia o pop e o rock. Esses gêneros não se misturavam, da mesma forma que nos EUA havia as rádios de brancos e as rádios de negros. Depois que Jacko fez seu passo de dança moonwalk num show em maio de 83 o mundo nunca mais foi o mesmo. A partir daí ele foi rompendo um tabu após o outro (pena que alguns tabus não são exatamente motivo de orgulho), recorde sobre recorde. Em dezembro do mesmo ano ele se juntou ao diretor John Landis para mais uma revolução, desta vez com um clipe, Thriller. E os clipes ganharam um status que não tinham até então.

Se não fosse MJ, nunca teríamos obras espetaculares como Do the Evolution, uma animação soberba em cima de uma canção do Pearl Jam. Você já deve ter visto, está em toda seleção de "melhores clipes". Mas vale o registro. Além do mais, acho que me saio melhor quando não escrevo besteira. O desenho é tipo uma versão enxuta de The Wall, atualizada pros anos 90. O traço do Todd McFarlane (das HQs Spawn) se adequa perfeitamente ao tom contestador, pessimista, incisivo, da letra, um resumo da história de nosso planeta, mais que isso, um mea culpa da raça humana, chegando a ser quase profético, visto que data de mais de 10 anos atrás. Influenciou muita coisa que veio depois, como Matrix. A manipulação das massas através da religião, a banalização da violência, o endeusamento da brutalidade e da alienação, os saltos tecnológicos que paradoxalmente nos desumanizaram ainda mais, gradualmente privando a singularidade de cada um. Máquinas cada vez mais parecidas com pessoas e vice-versa. O demônio personificado por uma gatinha irresistível. Um bebê brincando com um 38 carregado, acho que essa seria a síntese. E a música é rock´n roll da melhor estirpe, espécime cada vez mais raro. Confira aqui. Tentei copiar e colar a letra de vários sites, mas sempre vinha desconfigurado. Mas você pode ver aqui. Depois traduzo.

domingo, 13 de abril de 2008

China: Terra de Contrastes

As Olimpíadas de Pequim, somadas ao boom econômico, fizeram o mundo voltar sua atenção para a China. O fato de se situar do outro lado do globo, tratando-se de uma cultura tão antiga quanto peculiar, e somado a um regime político que tenta isolar seu povo o máximo possível do resto do planeta, nos leva a cultivarmos estereótipos muitas vezes equivocados. Talvez os chineses não sejam tão diferentes de nós quanto pensamos. Talvez sejam mais.

Munido desse espírito desmistificador, e com o apoio imprescindível da Superinteressante desse mês, pincei alguns fatos que podem lançar uma luz nesse mistério chamado China. Vou além dos filés de cachorro, pastelarias, tinturarias, Bruce Lee, bens de consumo baratos e ordinários e daquele chapéu engraçado dos plantadores de arroz. Mas não vá esperando um tratado acadêmico: vou falar de cultura, mas daquela que não tem serventia alguma.

- O Governo Chinês, uma das ditaduras mais duras de nossos tempos, merece letras maiúsculas, afinal, ele controla tudo, estando inclusive acima de Deus. Aliás, que Deus? O camarada Mao? Os lamas tibetanos, por exemplo, estão proibidos de ressuscitar sem a autorização do Estado. Os tentáculos do Partido Comunista, que é a mesma coisa que o Governo, controlam ainda a internet - são 30.000 censores só pra web - a religião - há católicos, mas eles não podem reconhecer o Papa como seu líder e padres e bispos precisam passar pelo crivo do PC antes de serem ordenados; a tv, é claro, e até mesmo os relógios. Devia haver 4 fusos horários na China, mas o Governo falou que a hora que vale é a de Pequim e não se discute.

- Mas não se discute mesmo: o Congresso se reúne apenas uma vez por ano. Toda forma de oposição ao PC é tratada como "ameaça ao regime", passível, no mínimo, de prisão. Aliás, há cerca de 100 jornalistas e blogueiros presos atualmente.

- Contudo, o tal mito de que nas execuções a família do morto paga pela bala é impreciso: ela também tem que arcar com o funeral, mas as flores são cortesia do PC.

- O chinês e o sexo: filme pornô é proibido. Um casal que via um vídeo erótico foi denunciado pelo vizinho. A polícia veio, encarcerou-os, confiscou o vídeo e a fita. Mas mesmo lá os ventos liberais já sopram: uma campanha (anônima, é claro) pela internet pedindo sua libertação resultou em sua soltura. O fanatismo da censura gera anomalias como uma estatística que diz que 77% dos chineses não sabem que a AIDS pode ser evitada com o uso da camisinha. E a maioria dos homens só perde a virgindade aos 23 anos. O aborto é permitido, por isso só 2% das chinesas casadas tomam pílulas anticoncepcionais. Homossexualismo é caso de polícia. Paradoxalmente, agências de escort girls são permitidas. No entanto, as garotas não fazem sexo, apenas conversam com clientes pouco afeitos a colóquios com o sexo oposto.

- Um grande evento esportivo são as Olimpíadas Suínas. As provas incluem corrida, natação, velocidade ao comer, simpatia e conhecimentos gerais. No ano passado o vencedor foi um atleta de 1040 quilos extremamente cortês e afável, por sinal.

- A cada feriado do Ano-Novo, mais de 300 milhões de chineses viajam pelo país para se juntarem a suas famílias. Com trens superlotados e sem banheiros, muitos se previnem usando fraldas geriátricas.

- Ah, sim, não podia esquecer da dieta do chinês. Basicamente, eles comem tudo que se move. Qualquer bicho que você pensar. Mesmo. Se for a Pequim, não deixe de visitar o restaurante Guolizhuang, especializado numa certa parte da anatomia de animais como touro, jumento, cão, carneiro, cobra e foca. Apenas os machos, é óbvio.

- Um pequeno conto macabro. Diz uma lenda que se um homem morrer sem se casar, sua linhagem estará comprometida em sua próxima encarnação. Caso esse infortúnio aconteça, sua família trata de matar ou mandar matar uma jovem para ser enterrada com ele e assim casarem-se no pós-morte, livrando-se da maldição. No ano passado, uma quadrilha especializada em conseguir "noivas cadáveres" foi presa.

- Para não me acusarem de implicância: o próprio Governo instituiu o Comitê de Orientação Espiritual Civilizadora. Os chineses são orientados a não escarrarem em público, não jogarem lixo na rua, respeitarem áreas de não-fumantes, falarem mais baixo em público (eles gostam de conversar aos berros), não agacharem na rua (?) e lavarem as mãos de vez em quando.

Pensando bem, o Lula devia implantar esse comitê aqui.