terça-feira, 17 de junho de 2008

The Cat Inside

Tigrinha

50 dias sem nem olhar o blog. E, de repente, me deu vontade de escrever um post. Botem a culpa nos gatos. E em William Burroughs. Chique no úrtimo, hein? Já devo ter falado desse cara antes, mas ele merece ser relembrado.

Burroughs é um ícone da geração beat. Tudo bem, mas o que é beat? Boa pergunta. O termo foi tão manipulado ao longo das transformações sociais ocorridas nas últimas décadas que ficou difícil defini-lo. Vou tentar pelo início. No final dos anos 40, Jack Kerouac e Neal Cassady botaram o pé na estrada e cruzaram os EUA de carona embalados por jazz e bebedeiras. Daí saiu um manuscrito redigido numa folha de bobina ou algo parecido, com 36 ms de comprimento. On the Road, um romance de formação marginal - no sentido de estar à margem - um exercício de liberdade e desapego, a semente da contracultura. Ser beat significava, na concepção de Kerouac, buscar crescimento espiritual através da assimilação de culturas e religiões diferentes. Guiar-se, acima de tudo, por sua consciência e expandi-la ao máximo, inclusive através de drogas, abraçar valores como espontaneidade e inconformismo; desprezar a indústria cultural e o materialismo. Ter uma visão de mundo libertária, tolerante, livre de preconceitos. A expressão foi tirada de uma gíria do submundo que significa "surrado", "detonado", em suma: de mal a pior. Mas para Kerouac definia uma postura de estar por baixo, no fundo, mas com a visão voltada para o alto, o topo. Daí sua semelhança com o termo "beatífico".

Cá entre nós, tudo muito virtuoso, mas vovó já dizia que esse tipo de coisa costuma dar em merda.

Mas para a opinião pública, beat eram jovens boêmios hedonistas, despudorados e rebeldes. Logo surgiu o termo "beatnik", uma forma pejorativa de se referir à turma de Kerouac, Allen Ginsberg, Cassady e Burroughs. E, como era de se esperar, a mídia e o sistema capitalista se apropriaram da palavra e a distorceram da forma que pudessem lucrar mais com ela. Mesmo assim, teve grande influência sobre movimentos posteriores, como os hippies e os punks.

De vanguarda a estereótipo

Entre os precursores do movimento, Burroughs foi um dos que mergulhou mais fundo em sua própria filosofia. Sua bissexualidade e tendência à drogadição manifestaram-se desde a adolescência. Graduou-se em Harvard, passou uma temporada na Europa e quando regressou o ataque a Pearl Harbor tinha acabado de acontecer. Quis alistar-se, mas seu passado de instabilidade mental relegou-o à posição de recruta, o que o deixou muito deprimido. Serviu o exército por alguns meses, nunca deixou seu quartel. Em 1944 mudou-se para um apartamento com Kerouac, sua esposa e Joan Vollmer, com quem veio a se casar. Nessa época começou a usar morfina e logo se viciou, tornando-se traficante para manter o vício. Sua esposa também passou a usar drogas, problemas com a lei eventualmente surgiram. Tiveram que fugir para o México. Em 1951 matou Joan com um tiro na cabeça enquanto brincavam de "Guilherme Tell": ele tinha que atirar numa maçã na cabeça da esposa com uma arma de fogo, completamente bêbado.

Burroughs e Kerouac

Segundo Burroughs, esse evento marcou seu nascimento como escritor. A morte de Joan apresentou-o ao invasor, o Espírito Horrendo, que só podia ser confrontado através da liberação do fluxo de consciência através da escrita. Entendeu? Nem eu. Mas Burroughs não é pra ser entendido. E suas peripécias estavam apenas começando.

E o que os gatos têm a ver com isso tudo? Na próxima. Mas não pude evitar a publicação de uma foto da Tigrinha, filha da segunda prole de Branquinha - em breve apresentarei todo o clã felino.

sábado, 26 de abril de 2008

O Caminho do Guerreiro Pacífico - Atualizado

Esta história não é de minha autoria. Vem de um filme, adaptação do livro que intitula este post.


Capítulo I


Ok, você é jovem, bonito, exímio na ginástica olímpica, popular, família rica, aluno exemplar. Sente que o mundo inteiro cabe em suas mãos. Então porque não dorme à noite? Vai saber... Fica perambulando pela madrugada, passa numa loja de conveniência e compra um gatorade - você também não tem vícios. O frentista, um velho barbudo, usando um sapato de cada cor, do nada faz algo fora do comum que chama sua atenção, mais que isso, te instiga, como se você tivesse que provar alguma coisa a ele. Muito estranho, se compararmos suas posições na pirâmide social, ou mais exatamente, na cadeia alimentar. Você é um grande felino, ele, no máximo um roedor. Os atletas mais completos são os ginastas. Ele te fala dos guerreiros espartanos de elite, cujo treinamento envolvia saltar sobre touros, sabia disso?
"Sei mais do que você imagina", é sua resposta.
Com ares de filósofo, ele retruca:
"Imagina mais do que sabe. Conhecimento não é o mesmo que sabedoria".
Que velho atrevido, que chavão mais surrado!
"É mesmo? Qual a diferença?" Sua voz não esconde a irritação.
"Sabe limpar um pára-brisa?" E ele atira uma bucha pra você. Ele está abastecendo um carro e você esfrega a bucha no vidro, sem pensar naquilo. "Sabedoria é agir."

"Sabedoria é agir"... ele deve ter visto isso naquele filme caça-níquel O Segredo. Mas você volta pra casa pensando naquilo.



Capítulo II


Ao dormir na noite seguinte com uma modelo aspirante a atriz ruiva e siliconada, sonha que está praticando nas argolas quando cai e sua perna se esfacela em pedaços. Um servente varre os caquinhos. Ele usa os mesmos sapatos do frentista.

Deixa a ruiva sem entender nada. Aquilo te impele para o posto:
"Porque usa um sapato diferente do outro? É uma moda nova entre os proletas?"
Ele não se abate com o comentário preconceituoso:
"Acidentei-me quando praticava."
Você o estuda. Parece emanar uma confiança inquebrantável, uma serenidade à toda prova. Quer diminuí-lo:
"Sabe que um dia você pode sair no Fantástico? 'O frentista que virou guru de auto-ajuda'. Já estou até imaginando o Cid Moreira narrando."
Ele te lança um olhar com tamanha piedade que você continua:
"Treino 7 dias por semana. 50 semanas por ano!"
"Pra quê?"
"Cê tá brincando, né? Estou prestes a conseguir a classificação." Você reforça a última palavra, pra calar a boca dele de vez. Mas isso é impossível:
"Classificação pra quê?"
"Acompanha as Olimpíadas?"
"Não."
Que lunático... ainda assim como ele coseguiu fazer aquilo que te impressionou tanto?
"Olha, mesmo sendo bom, tenho que dar o melhor de mim pra conseguir minha classificação para os Jogos Olímpicos."
"Você ainda precisa aprender muita coisa pra entender o que acabou de ver."

É verdade. Mas é claro que você não dá o braço a torcer:
"Então me teste. Faça uma pergunta. Qualquer uma. Manda ver, sem dó".

Pausa. Ele está debruçado sobre o motor de um Chevette que já devia estar no ferro-velho há anos. Ergue a cabeça e te encara:
"Você é feliz?"

Putaquepariu. Mais uma vez ele te desconcerta. Você é inundado por duas sensações quase conflituosas. O fascínio da criança ao ver o mágico tirando o coelho da cartola, e a vergonha raivosa que te apossou quando foi flagrado pela professora com uma revista pornô em frente de toda a classe. Sem se dar conta, você fica olhando pra ele de boca aberta, tirando e botando a mão no bolso. Não tem resposta para aquilo. Com o silêncio, ele volta a te olhar:
"Disse que eu podia perguntar qualquer coisa."
"O que felicidade tem a ver com isso?"
"Tudo."
E você passa a desfiar o rosário de maravilhas que é sua vida. Grana, notas altas, popularidade, garotas, sua moto Triumph de 800 cc, sua quase certeza de participar das Olimpíadas etc.
"Então porque não dorme à noite? Que está fazendo aqui mais uma vez se exasperando com um frentista às 3 da manhã?"

E mais uma vez ele está certo:
"Quem é você, o filósofo do posto Shell?"
"Precisa de filosofia?"
"Não, valeu, Platão, já tenho o suficiente na faculdade." Você diz isso já de saída, dando um esbarrão proposital nele. Babaca.

"Última pergunta, ginasta olímpico. Suponhamos que não seja classificado. O que você faria?"
(continua)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Ateu Attacks!

Brasileiro adora igreja. Enquanto ouvia agora há pouco um homem histérico berrando e cantando músicas medonhas num templo crente pensei numa coisa. Se um ET desembarcasse na Terra afim de pesquisar objetos de nossa devoção, sua descrição do Cristianismo seria mais ou menos assim:

Crença em um zumbi judeu cósmico que é o pai de si mesmo e te dará vida eterna se você comer sua "carne" e telepaticamente contar a ele que você o aceita como seu mestre; para que então ele possa remover de sua alma uma força maléfica que está presente na Humanidade porque uma mulher feita de uma costela foi convencida por uma cobra falante a morder um fruto de uma árvore mágica.

Faz sentido!

terça-feira, 15 de abril de 2008

O Caminho do Guerreiro Pacífico

Esta história não é de minha autoria. Vem de um filme, adaptação do livro que intitula este post.

Ok, você é jovem, bonito, atlético, popular, família rica, aluno exemplar. Sente que o mundo inteiro cabe em suas mãos. Então porque não dorme à noite? Vai saber... Fica perambulando pela madrugada, passa numa loja de conveniência e compra um gatorade - você também não tem vícios. O frentista, um velho barbudo, do nada faz algo fora do comum que chama sua atenção, mais que isso, te instiga, como se você tivesse que provar alguma coisa a ele. Muito estranho, se compararmos suas posições na pirâmide social, ou mais exatamente, na cadeia alimentar. Você é um grande felino, ele, no máximo um roedor. Ele te fala dos guerreiros espartanos de elite, cujo treinamento envolvia saltar sobre touros, sabia disso? "Sei mais do que você imagina", é sua resposta. Com ares de filósofo, ele retruca: "Imagina mais do que sabe. Conhecimento não é o mesmo que sabedoria". Que velho atrevido, que chavão mais surrado! "É mesmo? Qual a diferença?" Sua voz não esconde a irritação. "Sabe limpar um pára-brisa?" e ele atira uma bucha pra você. Ele está abastecendo um carro e você esfrega a bucha no vidro, sem pensar naquilo. "Sabedoria é agir."
(continua)


Continua nada. A partir daí o filme descamba para a americanofilia - nem sei se a palavra existe -
resvalando nos clichês de superação pessoal inverossímil, o mestre que acaba aprendendo com o discípulo, essas baboseiras de sempre. Nick Nolte está desperdiçado como o Yoda da Texaco. Mas os extras informam que é baseado em uma história real, um paraplégico que... ah, nem vale a pena contar.

Do the Evolution

Houve uma época, há muito menos tempo que parece, que o videoclipe era o supra-sumo da modernidade. Ir na casa de um amigo e ficar vendo aqueles filminhos toscos e cafonas dos anos 80 era super "in", como se falava, ou em português atualizado, o hype. Céus, estou falando como minha avó! "No meu tempo"..., "a gíria da época", "não se usava fazer isso"... São expressões típicas de quem julga pertencer a outro tempo, nostálgico. Pois é. No meu tempo o Michael Jackson ainda era um ser humano e amarrava-se cachorro com linguiça. Ha ha ha...

Michael does the evolution

Foi esse cara, hoje tido como aberração da natureza, que revolucionou não só a dança, mas toda a indústria da música. Antes do MJ havia o pop e o rock. Esses gêneros não se misturavam, da mesma forma que nos EUA havia as rádios de brancos e as rádios de negros. Depois que Jacko fez seu passo de dança moonwalk num show em maio de 83 o mundo nunca mais foi o mesmo. A partir daí ele foi rompendo um tabu após o outro (pena que alguns tabus não são exatamente motivo de orgulho), recorde sobre recorde. Em dezembro do mesmo ano ele se juntou ao diretor John Landis para mais uma revolução, desta vez com um clipe, Thriller. E os clipes ganharam um status que não tinham até então.

Se não fosse MJ, nunca teríamos obras espetaculares como Do the Evolution, uma animação soberba em cima de uma canção do Pearl Jam. Você já deve ter visto, está em toda seleção de "melhores clipes". Mas vale o registro. Além do mais, acho que me saio melhor quando não escrevo besteira. O desenho é tipo uma versão enxuta de The Wall, atualizada pros anos 90. O traço do Todd McFarlane (das HQs Spawn) se adequa perfeitamente ao tom contestador, pessimista, incisivo, da letra, um resumo da história de nosso planeta, mais que isso, um mea culpa da raça humana, chegando a ser quase profético, visto que data de mais de 10 anos atrás. Influenciou muita coisa que veio depois, como Matrix. A manipulação das massas através da religião, a banalização da violência, o endeusamento da brutalidade e da alienação, os saltos tecnológicos que paradoxalmente nos desumanizaram ainda mais, gradualmente privando a singularidade de cada um. Máquinas cada vez mais parecidas com pessoas e vice-versa. O demônio personificado por uma gatinha irresistível. Um bebê brincando com um 38 carregado, acho que essa seria a síntese. E a música é rock´n roll da melhor estirpe, espécime cada vez mais raro. Confira aqui. Tentei copiar e colar a letra de vários sites, mas sempre vinha desconfigurado. Mas você pode ver aqui. Depois traduzo.

domingo, 13 de abril de 2008

China: Terra de Contrastes

As Olimpíadas de Pequim, somadas ao boom econômico, fizeram o mundo voltar sua atenção para a China. O fato de se situar do outro lado do globo, tratando-se de uma cultura tão antiga quanto peculiar, e somado a um regime político que tenta isolar seu povo o máximo possível do resto do planeta, nos leva a cultivarmos estereótipos muitas vezes equivocados. Talvez os chineses não sejam tão diferentes de nós quanto pensamos. Talvez sejam mais.

Munido desse espírito desmistificador, e com o apoio imprescindível da Superinteressante desse mês, pincei alguns fatos que podem lançar uma luz nesse mistério chamado China. Vou além dos filés de cachorro, pastelarias, tinturarias, Bruce Lee, bens de consumo baratos e ordinários e daquele chapéu engraçado dos plantadores de arroz. Mas não vá esperando um tratado acadêmico: vou falar de cultura, mas daquela que não tem serventia alguma.

- O Governo Chinês, uma das ditaduras mais duras de nossos tempos, merece letras maiúsculas, afinal, ele controla tudo, estando inclusive acima de Deus. Aliás, que Deus? O camarada Mao? Os lamas tibetanos, por exemplo, estão proibidos de ressuscitar sem a autorização do Estado. Os tentáculos do Partido Comunista, que é a mesma coisa que o Governo, controlam ainda a internet - são 30.000 censores só pra web - a religião - há católicos, mas eles não podem reconhecer o Papa como seu líder e padres e bispos precisam passar pelo crivo do PC antes de serem ordenados; a tv, é claro, e até mesmo os relógios. Devia haver 4 fusos horários na China, mas o Governo falou que a hora que vale é a de Pequim e não se discute.

- Mas não se discute mesmo: o Congresso se reúne apenas uma vez por ano. Toda forma de oposição ao PC é tratada como "ameaça ao regime", passível, no mínimo, de prisão. Aliás, há cerca de 100 jornalistas e blogueiros presos atualmente.

- Contudo, o tal mito de que nas execuções a família do morto paga pela bala é impreciso: ela também tem que arcar com o funeral, mas as flores são cortesia do PC.

- O chinês e o sexo: filme pornô é proibido. Um casal que via um vídeo erótico foi denunciado pelo vizinho. A polícia veio, encarcerou-os, confiscou o vídeo e a fita. Mas mesmo lá os ventos liberais já sopram: uma campanha (anônima, é claro) pela internet pedindo sua libertação resultou em sua soltura. O fanatismo da censura gera anomalias como uma estatística que diz que 77% dos chineses não sabem que a AIDS pode ser evitada com o uso da camisinha. E a maioria dos homens só perde a virgindade aos 23 anos. O aborto é permitido, por isso só 2% das chinesas casadas tomam pílulas anticoncepcionais. Homossexualismo é caso de polícia. Paradoxalmente, agências de escort girls são permitidas. No entanto, as garotas não fazem sexo, apenas conversam com clientes pouco afeitos a colóquios com o sexo oposto.

- Um grande evento esportivo são as Olimpíadas Suínas. As provas incluem corrida, natação, velocidade ao comer, simpatia e conhecimentos gerais. No ano passado o vencedor foi um atleta de 1040 quilos extremamente cortês e afável, por sinal.

- A cada feriado do Ano-Novo, mais de 300 milhões de chineses viajam pelo país para se juntarem a suas famílias. Com trens superlotados e sem banheiros, muitos se previnem usando fraldas geriátricas.

- Ah, sim, não podia esquecer da dieta do chinês. Basicamente, eles comem tudo que se move. Qualquer bicho que você pensar. Mesmo. Se for a Pequim, não deixe de visitar o restaurante Guolizhuang, especializado numa certa parte da anatomia de animais como touro, jumento, cão, carneiro, cobra e foca. Apenas os machos, é óbvio.

- Um pequeno conto macabro. Diz uma lenda que se um homem morrer sem se casar, sua linhagem estará comprometida em sua próxima encarnação. Caso esse infortúnio aconteça, sua família trata de matar ou mandar matar uma jovem para ser enterrada com ele e assim casarem-se no pós-morte, livrando-se da maldição. No ano passado, uma quadrilha especializada em conseguir "noivas cadáveres" foi presa.

- Para não me acusarem de implicância: o próprio Governo instituiu o Comitê de Orientação Espiritual Civilizadora. Os chineses são orientados a não escarrarem em público, não jogarem lixo na rua, respeitarem áreas de não-fumantes, falarem mais baixo em público (eles gostam de conversar aos berros), não agacharem na rua (?) e lavarem as mãos de vez em quando.

Pensando bem, o Lula devia implantar esse comitê aqui.

domingo, 16 de março de 2008

Metal - Parte 1

Não, não sou metaleiro. Talvez tenho esboçado alguma identificação com headbangers em minha adolescência tardia, já mais próximo dos 20 anos, naquela fase quando o mundo se abre pra você como uma cornucópia de maravilhas. Me aplicaram no Iron Maiden, achei pesado demais, com o tempo acabei gostando. Depois, num impressionante processo de expansão da consciência, tomei conhecimento do Led, Deep Purple, Sabbath, Cream (considera este heavy?). Minha trajetória musical é um tanto incomum. Quando criança, nada de Balão Mágico, Xuxa ou Menudo (se você nasceu depois dessa era paleolítica, a grosso modo esse povo hoje corresponde respectivamente ao High School Musical, alguma loura gostosa da vez, tipo Kelly Key ou Britney Spears e o grupo RBD, se não me engano). Acho que eu era uma versão mineira do geek ou nerd, pois aos 10 anos colecionava discos do Milton Nascimento e Beto Guedes. E ainda passava horas elaborando rankings altamente criteriosos das melhores músicas deles, divididos em categorias como letra, arranjo e "quociente emocional", a capacidade da música te arrepiar. No topo tinha Travessia, Nos Bailes da Vida, Para Lennon e McCartney, Canção da América e Feira Moderna (essa do Beto) Tinha certeza absoluta que me tornaria um escritor de grande sucesso, meu ídolo era o L.F. Verissimo.

Na mesma época - lembre-se, com 10 anos, meu pai me levou - fui no Rock in Rio I. Sim, o primeiro, legendário, com AC/DC, Iron Maiden, Whitesnake, Ozzy, Scorpions. Era a fse de ouro do Metal. E eu era tão cdf que odiava essas bandas e preferi ir no dia do George Benson e James Taylor.


Tsc, tsc. Ainda vou construir uma máquina do tempo para voltar a janeiro de 85 e corrigir essa cagada.


Assim como a maior parte do mundo, eu também discriminava os metaleiros. Satanistas, hedonistas, incompetentes, marginais etc. Não entendia como meus amigos podiam gostar daquilo e mesmo esses sequer tinham uma pálida idéia do que Satanismo realmente se trata. Na verdade, eu ainda não estava pronto. Pois metal está ligado à força, liberdade, questionamentos como: onde foi parar minha rebeldia, meu desejo de não compactuar com uma sociedade hipócrita? Como amadurecer sem deixar de ser fiel a mim mesmo? Como ser idealista num mundo onde as instituições que julgavam-se guardiãs da moral estão em colapso? A civilização ocidental e seus líderes já não oferecem mais escolhas, ou você entra no ritmo deles ou será rotulado como "doidão".
Se você deixar de lado mitos como o Ozzy comendo pintinhos, adoração ao Demo, promiscuidade, drogas e tudo mais, verá que a tribo dos metaleiros é um dos poucos portos seguros que um garoto com "problemas de adaptação" tem para se agarrar. Ainda tem muita gente que crê que de fato eles adoravam o Belzebu, o diabinho chifrudo com pés de cabra. Meus amigos gostavam do peso da guitarra e títulos como Suicide Solution, mas o metal vai muito além de notícias de tablóide e provocações. Aliás, recomendo o documentário Metal para todos que tiverem esses preconceitos. E prá quem não tem.


Pois o Heavy Metal também pode ser uma ferramenta de auto-conhecimento, ou mesmo auto-preservação desses adolescentes marginalizados. Há uma relação quase mística entre os músicos e os fãs. Em geral e, sobretudo no início da febre, tinham a mesma origem humilde, crescendo em bairros violentos, repletos de drogas e ignorados pelo Estado. Ironicamente, músicas execradas por entidades de direita nos EUA, por supostamente serem nocivas e influenciar negativamente pessoas tão jovens e inocentes, na verdade davam mais sentido a suas vidas. Antes ouvir músicas de certo modo violentas que tornar-se violento. Mais que isso, esses jovens encontravam um lugar no mundo, descobriam pessoas com os mesmos problemas. Sem a hipocrisia dos falsos moralistas, que reprimiam seu lado sombrio, sabiam que o bem e o mal estavam dentro de cada ser humano. Através de letras realmente chocantes, travavam conhecimento com este lado mau, canalizando sua energia de forma mais sadia. Já reparou nas turmas de metaleiros (cada vez mais raras)? Ao contrário dos skinheads, dos mauricinhos que espancam empregadas domésticas, dos torcedores nos estádios, dos marines americanos cheios de espinhas matando iraquianos com a mesma alegria que exterminam demônios no videogame Doom, o metaleiro é pacífico, na dele, tem muita personalidade, preocupa-se em ter opinião própria sobre as coisas, em geral não usa drogas. Se você é pai de um adolescente, sentiria-se mais tranquilo se ele (ou ela) fosse a um baile funk ou a um show do tipo "tributo ao hard rock"?


Dee Snider cumprimenta os Congressistas

Então porque foram tão perseguidos? Nos anos 80, a mulher do Al Gore, Tipper, liderou uma campanha para o banimento das bandas de heavy das rádios, das lojas de disco etc. O genial Dee Snider, do Twisted Sister (We ain´t gonna take it, lembra, com aquele clipe insano, e que foi tão imitado hoje é ironicamente desprezado?), sentiu-se incumbido da missão de defender a si mesmo e seus colegas na Corte. Cara a cara com seus maiores detratores, poíticos importantes, chegou usando uma jaqueta jeans rasgada e aquele cabelão indescritível. Os caretas debochavam dele, mas vacilaram ao subestimá-lo. Tirou do bolso um discurso contundente, bem articulado, objetivo, nunca resvalando na vulgaridade ou na empáfia de seus acusadores. Uma de suas músicas falava do tratamento dentário de um cara ou algo assim, mas a Sra. Tipper viu-a como uma apologia a um monte de coisa ruim, tipo estupro, subserviência, crueldade ou coisa que o valha. Snider disse que cada um interpreta a música a seu modo, de acordo com sua vivência, crenças e sonhos; que se a cabeça dela está cheia merda, ela vai ver merda.


Alice Cooper teve um show proibido em Londres. Ele encenava uns atos violentos e arrematava simulando sua própria decapitação. Ele quis saber o motivo da censura. Violento demais? Macbeth, peça de Shakespeare, só prá citar um entre uma infinitude de exemplos, é um banho de sangue, mas é leitura obrigatória no ensino anglo-americano. Tinha nudez ou mandava a rainha se foder? Não. De fato, os censores ingleses não encontraram uma explicação plausível para vetarem Alice. Particularmente, acho suas pantomimas de um profundo mau gosto. Mas desde quando a estética - no caso, a ausência dela - pode ser passível de censura? Isso me remete ao filme O Povo Contra Larry Flynt. Transcrevo aqui parte do discurso (real) do advogado Alan Isaacman na Suprema Corte dos E.U.A. em defesa do pornógrafo mencionado acima e sua infame publicação, a revista Hustler:


Ladies and gentlemen of the jury, you have heard a lot today, and I'm not gonna go back over it, but you have to go into that room and make some decisions. But before you do, there's something you need to know. I am not trying to suggest that you should like what Larry Flynt does. I don't like what Larry Flynt does, but what I do like is the fact that I live in a country where you and I can make that decision for ourselves. I like the fact that I live in a country where I can pick up Hustler magazine and read it, or throw it in the garbage can if that's where I think it belongs.

Atendendo a pedidos, a tradução:

Srs. e Sras. do júri, vocês ouviram muito hoje, e não vou voltar ao assunto, mas vocês têm que entrar naquelasala e tomar umas decisões. Antes disso, há algo que precisam saber. Não quero convencê-los a gostar do que Larry Flynt faz. Eu não gosto, mas gosto do fato de viver em um país onde você e eu podemos tomar nossas próprias decisões. Gosto do fato de viver em um país onde posso pegar a revista Hustler e lê-la, ou posso jogá-la no lixo se achar que este é o lugar dela.


Ainda tenho muito a falar do assunto, mesmo porque ao revisar esse texto agora é que notei que fugi do tema e ficou meio sem pé nem cabeça. Continua

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

orodetolo


Às vezes leio a coluna de um cara que escreve para O Tempo, um jornal local bem chinfrim. Um dia desses ele fez uma paródia da famosa música do Raul Seixas... me faltam palavras para tanta...

Eu devia estar contente porque tenho um emprego, sou apenas um rapaz latino-americano, dito um cidadão desprezível e ganho R$ 379,90 por mês. Eu devia agradecer o Senhor por ter sucesso na vida, apesar de ter medo de avião e ter percebido que no fundo sou igual a meus pais. Eu devia estar feliz porque consegui comprar uma Kombi Miss Sunshine 73.

Eu devia estar grato ao Todo-Poderoso pelo trocador do ônibus ter troco pra cinco reáu e por ter sido reconhecido pelo garçon do self service na fila do banco. Eu devia estar rindo à toa porque só faltam 11 prestações, sem juros, no cartão da minha avó, da TV telefunken que comprei nas Casaa Bahia, onde você pode dvder o quanto quiser.

Eu devia estar sorrindo porque finalmente comprei uma dentadura.
Eu é que não me levanto da mesa de bar onde sentei sem ser convidado e filei o conhaque do velho, apesar dos protestos gerais. Porque foi tão fácil conseguir e agora eu intimo "e daí?" eu ainda tenho muita cara de pau, então peço um old eight na conta do outro e se alguém achar ruim pode cair pra dentro.

Eu é que não me sento pois prefiro ficar deitado vendo big brother enquanto minha mulher estranhamente demora 4 horas só pra levar uma xícara de açúcar pro vizinho lutador de jiu jitsu. Porque longe do Copacabana Palace e dos
Champs Elysées, mas na porta da minha casa se assenta a sombra sonora e malcheirosa de um cobrador.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Irmãos Coen e coisas redondas e divertidas

Os irmãos Coen voltaram à moda com mais um filme rude, violento e esquisito. Onde os fracos não têm vez é forte candidato a um punhado de oscars, mas nem o fato de eu estar com o dvd pirata do filme foi motivo suficiente para eu me atrever a assisti-lo. Muita gente diz que não está nem aí pros oscars, e eu estaria mentindo se dissesse que sou uma delas. Então porque não vejo o maldito filme, já que adoro os caras, como se pode ver na lista ao lado? Resposta: pelo que ando ouvindo, parece ser "Coen demais", no mau sentido. Ou seja: peca pelo excesso de cenas chocantes, por aquele distanciamento que imprimem a suas obras mais "sérias", tornando-as pouco humanas e a identificação com qualquer personagem improvável. Como em Gosto de Sangue (Blood Simple) ou O Homem que não estava lá (The Man who wasn´t there). Por alguma razão, apesar de ter as mesmas características, não acho Fargo "Coen demais". Talvez por causa do Steve Buscemi ou pelo sotaque hilário dos personagens. Sei lá. O negócio é que se alguém fala mal desse filme sinto como um parente próximo foi insultado e dá vontade de voar no pescoço do cara. Mas não é disso que queria falar.
Entendem o que estou dizendo? Cena do filme mencinado acima

Sinto falta das boas comédias deles, como O Grande Lebowski e, sobretudo, Na Roda da Fortuna (The Hudsucker Proxy). Este último, não por acaso, deve ser o filme mais "humano" dos Coen, no sentido de ser o que mais se assemelha a coisas que gostamos de aninhar e proteger, como filhotes de gatos e cães. Pois trata-se de uma homenagem declarada aos filmes de Frank Capra, um sujeito que realmente acreditava que (quase) todo ser humano era essencialmente bom, justo e honesto e aquele que não fosse era regiamente repreendido até o fim do filme. Mas ainda não chegamos ao que quero abordar.

"Hoopla with the hula hoop"

Na Roda da Fortuna centra-se na epopéia de um ingênuo e bem-intencionado caipira (Tim Robbins) na cidade grande. Como parte de um complô imundo arquitetado pelo personagem de Paul Newman, ele é alçado ao posto de Presidente de uma poderosa corporação, justamente pelo fato de ser um "inocente útil", um cara cuja ingenuidade beira à burrice, e que desse modo, fatalmente levaria a corporação à bancarrota. Aí, com as ações a preço de banana, a companhia seria adquirida pelo maldoso Newman e Robbins sairia da jogada. Mas o que levou o lobo mau a escolher especificamente aquele cordeirinho? Numa sequência impagável, Robbins procura Newman para lhe falar de sua idéia revolucionária, e mostra a ele um papel com um círculo desenhado, e só. Aquilo era o rascunho de um bambolê, ou hula hoop em inglês. Enfim chegamos onde eu queria: bambolês e outras coisas redondas, simples, divertidas, "coquêluchicas", que fazem as crianças pular de excitação e os mais velhos suspirarem, nostálgicos.

Eu amo esse filme

Deu vontade de ver o filme? É, meu caro, não queria botar água na sua fervura, mas a não ser que dê a sorte de deparar-se com ele na tv paga, vais ficar na vontade, porque eu já o procurei e ele inexiste em dvd no Brasil, e as cópias em VHS são escassas. Que peninha. De qualquer modo, a película despertou minha curiosidade quanto às verdadeiras origens do bambolê. E, mais uma vez, a infalível revista Piauí, meu manancial de artigos tão bem redigidos quanto inusitados, me propiciou um post e respondeu a mais uma antiga indagação minha.

Parabéns pro bambolê. Nesse ano ele completa 50 anos. Em 1958, um tal Richard Knerr (pronuncia-se "nur") viu uns garotos australianos fazendo exercícios aeróbicos com aros de madeira. Um ótimo exercício, como reiterou um professor de Educação Física. Humildemente, passo a copiar a revista, eles contam a história melhor que eu:

Foi uma epifania. Knerr e seu sócio e amigo de infância Arthur Melin (a quem só falta uma consoante para ficar com nome de mago) levaram a idéia para os E.U.A., trocaram a madeira pelo plástico colorido, inventaram um nome prá lá de bom e começaram a demonstrar eles mesmos a novidade nos playgrounds da Califórnia. Criava-se ali a mãe de todas as manias. Antes do Cubo Mágico, do Pogobol, do Pacman e do Pokemon, o mundo rendeu-se aos pés - ou melhor, aos quadris - do Hula Hoop, aqui batizado de Bambolê.

E por aí vai. Em seguida somos informados que apenas dois anos depois o bambolê batia a casa dos 100 milhões de exemplares vendidos, a impensáveis US$1,98. O bambolê era uma piada do Juquinha no meio do chá de senhoras, uma bola de chiclete que estourava -ploc! - no jantar de gala. Quem sabe não foi uma das primeiras manifestações inconscientes do movimento hippie que estava por vir na década seguinte, assim como o Chuck Berry cantando Johnny B. Goode?

Mais um produto das Indústrias Wham-O

Knerr e Melin tinham uma empresa de fundo de garagem cujo nome derivava de seu primeiro produto: um estilingue, o zumbido do elástico esticando-se - whammmmmm - e o ruído do projétil acertando o alvo - o! - e estavam criadas as indústrias Wham-O. Cara, se eu fosse o Papa eu batalhava pra canonizar esses dois senhores. O mundo precisa, mais do que nunca, de gente como eles. Pois foram também eles os responsáveis pela popularização do frisbee, em 1955. Cinco anos depois um engenheiro químico levou a eles uma descoberta acidental, um plástico que não parava quieto. Criou-se então uma bolinha endiabrada, assassina serial de louças, taças de cristal, vidraças e o que mais viesse em sua trajetória. A revista não fala, mas creio que por aqui apelidamos a bolinha de "perereca".

Mas, como o Homem, esse animal tão estranho, sempre acaba com a brincadeira e a alegria inerente a ela, a Wham-O acabou vendida para a Mattel, dos bonecos Barbie e Ken, e pouco a pouco foi tragada e descaracterizada pela megacorporação fria e desumana.

Detalhe de uma das capas da Piauí; numa outra Che Guevara usa camiseta com estampa do Bart Simpson!

Quer saber mais? Compre a edição da revista de fevereiro. Ainda estou apreciando-a, bem devagarzinho, porque sei que um dia o Homem vai me privar da Piauí, e, embora isso possa soar ridículo, provavelmente nesse dia vou verter uma lágrima em honra a esse compêndio mensal da genialidade humana, que parece ter sido feita especialmente como uma encomenda para mim - ó, megalomania - , para que minha crença num mundo divertido, curioso, fascinante, plural, nunca pereça.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

I´m not dead

É com um misto de alegria e apreensão que venho informar meus leitores que não abandonei este blog e vou dar prosseguimento à história. Alegria porque abandoná-lo seria como me aproximar das trevas da ignorância e alienação. Por outro lado, estou apreensivo porque a história foi concebida e desenvolvida num determinado contexto que se diluiu numa inundação de eventos insólitos. Mas não largo o osso: desistir da história também seria uma demonstração de fracasso and I ain´t no loser.